O Mestre e o Discípulo

Voltar ao índice

Parte I — O Guru

1. O Guru

O Guru vê no seu discípulo a própria imagem de Deus; portanto, ele é todo sacrifício para o discípulo. O discípulo vê e sente no seu Guru o único abrigo para suas limitações; então, ele é todo amor para o seu Guru.

O amor do Guru pelo seu discípulo é a sua força. A entrega do discípulo ao seu Guru é a força do discípulo.

O Guru é, ao mesmo tempo, a fonte das conquistas do discípulo e o mais leal servo do amor do discípulo.

O Guru tem apenas uma arma de compaixão: o perdão. O discípulo tem três espadas nuas: limitação, fraqueza e ignorância. Mesmo assim, o Guru vence com grande facilidade.

Alcançar a realização por conta própria e sozinho é como cruzar o oceano num bote. Mas atingir a realização através da Graça de um Guru é como cruzar o oceano num navio forte e veloz, que o transporta com segurança através do mar de ignorância até a Costa Dourada.

Ó discípulo, você sabe quem é o comprador mais tolo da terra? É o seu Guru e apenas o seu Guru. Ele compra a sua ignorância e lhe dá conhecimento; ele compra a sua impotência e lhe dá poder. Pode imaginar barganha mais tola? Agora, aprenda o nome da tolice do seu Guru: compaixão, e nada mais.

2. SEU VERDADEIRO PROFESSOR

Aquele que o inspira
É o seu verdadeiro professor.

Aquele que o ama
É o seu verdadeiro professor.

Aquele que o força
É o seu verdadeiro professor.

Aquele que o aperfeiçoa
É o seu verdadeiro professor.

Aquele que o valoriza
É o seu verdadeiro professor.

3.

O professor humano mostra a você
Como ler.
O divino professor incansavelmente
Lê para você.
O primeiro conduz a sua mente
Ao portal da sabedoria,
O outro abre a sua alma
Para o vasto-céu Azul.

4. O PAPEL DO GURU

Um Mestre espiritual verdadeiro é alguém que alcançou a Deus-realização. Todos nós somos um com Deus, mas o Mestre espiritual verdadeiro estabeleceu sua unicidade consciente com Deus. A qualquer momento, ele pode entrar numa consciência mais elevada e trazer mensagens de Deus para aqueles discípulos que têm fé nele. O Mestre, se genuíno, representa Deus na Terra para aqueles buscadores que têm verdadeira aspiração e fé no Guru. Ele foi autorizado ou encarregado por Deus a ajudá-los. O verdadeiro Professor, o verdadeiro Guru, é o próprio Deus. Mas na Terra, Ele normalmente agirá em e através de um Mestre espiritual. O Mestre energiza o buscador com inspiração e, com o tempo, através da infinita Graça do Supremo, oferece ao buscador a iluminação.

Você se engana quando toma o Mestre como apenas a pessoa, como o corpo humano. Deve sentir que o verdadeiro Mestre está dentro do físico. Por que meus discípulos vêm até mim? É porque seu verdadeiro Mestre, o Supremo, está dentro de mim. O Supremo também está dentro deles, mas neles, Ele está dormente, enquanto que em mim Ele está completamente desperto. O Mestre e o discípulo são como dois amigos que têm a mesma capacidade, mas um está dormindo e precisa de ajuda para acordar antes de poder manifestar sua capacidade. O Guru é alguém que chega, toca os pés de seu irmão e, acariciando sua cabeça, diz “Por favor, levante. Chegou a hora de trabalharmos para nosso Pai.”

Quando um Mestre aceita alguém como discípulo, ele aceita aquela pessoa como parte de si. Se o discípulo é imperfeito, o Mestre também está imperfeito. Na perfeição do discípulo está a perfeição do Mestre. Eu sempre digo que não tenho individualidade nem personalidade. São os feitos dos meus discípulos que me levarão ao Céu ou ao inferno. Eu tenho a capacidade de permanecer o tempo todo no Paraíso, mas eles podem facilmente me arrastar para o inferno a cada momento porque eu os aceitei como parte de mim.

Um verdadeiro Mestre espiritual procura trazer à tona a divindade interior do discípulo do fundo de seu coração. Ele bate à porta-coração do discípulo e desperta a criança divina nele, que nós chamamos de alma. E ele diz à alma: “Você tomará conta dos outros membros da família – o físico, a mente e o vital – e cuidará deles. Eles estão cometendo erros constantemente. Agora, dê-lhes uma nova vida, um novo significado, um novo propósito.”

É trabalho do Mestre espiritual fazer seus discípulos sentirem que, sem amor, sem verdade e luz, a vida é sem sentido e infrutífera. A coisa mais importante que um Mestre espiritual faz por suas crianças espirituais é trazer a eles a percepção consciente de algo vasto e infinito dentro delas mesmas, o qual não é nada menos que o próprio Deus.

A mais elevada Verdade transcendental está dentro de nossos corações, mas desafortunadamente ainda não a descobrimos. Portanto, eu peço aos meus discípulos que vão fundo dentro de si mesmos e meditem no coração, o qual abriga a alma. Por fim, eles aprendem como contatar a alma e começam a ouvir seus ditames. Nessa ocasião, começam a fazer verdadeiro progresso em direção à descoberta de seu mais elevado e profundo Eu.

Se alguém já possui um certo desenvolvimento, ou seja, se já praticava a vida espiritual em encarnações anteriores e está em condições de ouvir o que diz o seu ser interior, não lhe é absolutamente necessário ter um Mestre espiritual. Nesse caso, ele tem apenas de buscar em seu interior profundo e praticar a vida espiritual com toda sinceridade. Como não deseja a ajuda de um Mestre, ele deverá depender completamente de si e da infindável Graça de Deus. Todavia, precisamos lembrar-nos que o caminho espiritual é muito árduo; apenas em raras circunstâncias alguém realizou Deus sem a ajuda de um Mestre espiritual. Os próprios Mestres espirituais, em sua maioria, receberam ajuda de alguém por um dia, um mês, um ano ou dez anos antes de realizarem Deus.

Assim como precisamos de professores para o conhecimento exterior – para iluminar nosso ser exterior – também precisamos de um Mestre espiritual para nos ajudar e nos guiar na vida interior, especialmente no início. Senão, nosso progresso será muito lento e incerto, e poderemos sentir-nos muito confusos. Teremos experiências elevadas, edificadoras, mas não lhes daremos a importância devida. A dúvida poderá eclipsar nossa mente, e diremos: “Sou apenas uma pessoa comum, então como posso ter esse tipo de experiência? Talvez eu esteja me iludindo.” Ou quem sabe contaremos a nossos amigos e eles dirão: “É só uma alucinação mental. Esqueça essa história de vida espiritual.” Mas, se houver alguém que saiba o que a Realidade é, ele dirá: “Não aja como um tolo. As experiências que tem tido são absolutamente reais.” O Mestre encorajará e informará o buscador, e também lhe dará as devidas explicações sobre suas experiências. Igualmente, se o buscador tem feito algo errado em sua meditação, o Mestre está em posição de corrigi-lo.

Porque alguém vai à universidade, se pode estudar em casa? É porque sente que receberá instrução especial de quem conhece bem o assunto. Você bem sabe que existem algumas – ainda que muito, muito poucas – pessoas de verdadeiro conhecimento que não cursaram universidade alguma. Sim, existem as exceções. Toda regra admite exceções. Deus está em todos, e se um buscador sente que não necessita de ajuda humana, será muito bem-vindo para testar sua capacidade sozinho. Mas, se é sábio e deseja correr para sua Meta, ao invés de tropeçar ou simplesmente caminhar, certamente a ajuda de um Guru será considerável.

Digamos que estou em Londres. Sei que Nova York existe e que tenho de voltar para lá. De que preciso para levar-me até lá? De um avião e de um piloto. A despeito de saber que Nova York existe, não posso chegar lá sozinho. Do mesmo modo, você sabe que Deus existe. Você quer alcançar Deus, mas alguém deve levá-lo até lá. Assim como o avião me leva a Nova York, alguém tem de conduzi-lo para a consciência de Deus que está no seu interior profundo. Alguém tem de mostrar-lhe como entrar em sua própria divindade, que é Deus.

Um Mestre espiritual vem a você com um barco. Ele diz, “Vem! Se deseja ir para a Costa Dourada, eu o levarei. Além disto, uma vez no meu barco, você poderá cantar, dançar e até dormir, mas eu o levarei à Meta em segurança.”

Há milênios temos nadado no mar da ignorância. Quando despertamos, queremos cruzar esse mar em direção ao oceano de Luz e Deleite. Se sabemos que há um barqueiro, e que há um barco que pode levar-nos com segurança à nossa meta, naturalmente tentaremos obter sua ajuda. Um Mestre espiritual genuíno sabe o caminho e dedica-se a ajudar-nos a alcançar essa meta. Como um barqueiro, ele nos levará à outra margem.

Se qualquer pessoa ajudá-lo no mundo exterior – seja um advogado ou um médico, por exemplo – ele cobrará. Mas, quando o Guru o leva à sua meta, ele nada toma para si. Você não tem de dar a ele nem um pingo da sua riqueza porque ele tem a sua própria riqueza infinita. Por fim, você perceberá que toda essa riqueza é a mesma. A meta dele, a sua meta, e a meta de todos é a mesma: Paz, Luz e Beatitude infinitas. O Mestre espiritual diz: “Você tem fome. Eu tenho um suprimento infinito do alimento divino que deseja, portanto não preciso tomar nada de você.”

Na vida comum, se as pessoas veem alguém receber ajuda, podem até dizer: “Oh, ele não pôde fazer aquilo sozinho.” Mas a pessoa que está realmente faminta por Deus expressa-se assim: “Não importa quem oferece a comida, pois estou com fome e quero comer agora. Essa é a comida pela qual tenho ansiado durante toda a minha vida, e ele está suprindo-me dela. Enquanto ele alimentar-me com Divindade verdadeira, deixe que eu coma.”

Se você sente que ao aceitar um Mestre estará evitando as próprias responsabilidades, está enganado. Dessa forma estará separando-se do seu Mestre. Aqueles que são meus discípulos muito devotados não se sentem estranhos. Eles sentem sua unicidade comigo, sentem que tenho mais capacidade que eles e, então, identificam sua pouca capacidade com a minha capacidade maior. Quando entram em minha capacidade, sentem que estão entrando em suas próprias capacidades, porque dentro de mim, veem todo o amor e cuidado.

Somente sentindo a sua unicidade com o Mestre é que poderá fazer progresso real. Sentindo-se um estranho ou um intruso no coração do Mestre, ou mesmo pensando ser apenas um convidado, nunca terá sucesso na vida espiritual. Quanto tempo poderá ficar na casa de um amigo como convidado? Apenas alguns dias ou um mês, e então terá de ir embora. Mesmo sentindo que vem como amigo, ainda assim deverá partir. Mas, se sentir que a casa dele é a sua casa, então estará seguro, eternamente seguro.

Quando o discípulo e o Mestre se sentem seguros um no coração do outro, a hora da iniciação está próxima. Quando o Mestre inicia alguém, ele dá à pessoa uma porção de seu alento-vida. Na ocasião da iniciação, o Guru faz uma promessa solene ao buscador e ao Supremo de que dará o melhor de si para ajudar o buscador na sua vida espiritual, que oferecerá seu coração e sua alma para conduzir o discípulo até a mais elevada região do Além. O Mestre diz ao Supremo: “A menos e até que eu tenha levado esta criança até Ti eu não a deixarei, meu jogo não estará terminado.” E ao discípulo: “De agora em diante, pode contar comigo; pode considerar-me como muito seu.”

Na hora da iniciação, o Mestre realmente assume as abundantes imperfeições do discípulo, tanto desta quanto das encarnações passadas. Certamente, há Mestres espirituais verdadeiros e sinceros e, também, os falsos. Aqui, refiro-me aos verdadeiros. Alguns Mestres que são muito sinceros somente iniciam um discípulo por mês. Após a iniciação, ficam doentes e sofrem terrivelmente, porque assumiram verdadeiramente as imperfeições do discípulo. Todavia, existem alguns Mestres espirituais capazes de iniciar muitos discípulos, sem sofrimento, porque têm a capacidade de lançar na Consciência Universal as imperfeições que retiram deles. Mas também há alguns falsos Mestres que iniciam cinquenta, sessenta ou cem discípulos de uma vez, ou que iniciam por procuração. Esse tipo de iniciação em massa é uma grande ilusão.

O Guru pode iniciar o discípulo por vários meios. Pode fazer a iniciação à tradicional maneira indiana, enquanto o discípulo medita. Também pode iniciar enquanto o discípulo dorme ou mesmo em sua consciência normal, mas calmo e tranquilo. O Guru pode iniciar o discípulo simplesmente através dos olhos. Ele olha para o discípulo e imediatamente este é iniciado – mas ninguém fica sabendo. Um Mestre também pode proceder à iniciação física, que é pressionar a cabeça ou o coração ou qualquer parte do corpo do discípulo. Nessa ocasião, ele tenta fazer a consciência física sentir que a iniciação ocorreu. Mas junto com essa ação física, o Guru iniciará o discípulo de uma forma psíquica. O Guru vê e sente a alma do discípulo, agindo sobre ela. A iniciação também pode ser feita através de processos ocultos ou num sonho. Se não houver Mestre espiritual disponível na época, o próprio Deus pode tomar uma forma humana muito luminosa no seu sonho ou durante sua meditação e Ele próprio pode iniciar você. Mas isso é muito raro. Na maioria dos casos, a iniciação é feita por um Mestre.

Meus discípulos não precisam pedir-me para iniciá-los exteriormente, porque eu sei o que é melhor para eles; isto é, eu sei quando ou não a iniciação exterior vai acelerar seu progresso interior. Frequentemente, eu inicio meus discípulos através de meu terceiro olho, que percebo ser o modo mais convincente e efetivo. Muitos já viram meus olhos quando estou em minha consciência mais elevada. Nessas ocasiões, meus olhos humanos tornam-se um com meu terceiro olho. Estes dois olhos comuns então recebem infinita Luz do terceiro olho, e a Luz proveniente dos meus olhos divinamente radiantes entra nos olhos do aspirante. Imediatamente, a Luz entra no corpo todo do aspirante e o permeia da cabeça aos pés. Então, vejo a Luz, a minha própria Luz, a Luz do Supremo, brilhando na ignorância do discípulo, e aquela ignorância oferece sua gratidão. Ela diz: “Agora que me tornei sua, agora que o senhor me fez sua, serei sua para sempre.” Nessa ocasião, torno-me responsável por iluminar a ignorância do discípulo e o discípulo se torna responsável por ajudar-me a manifestar o Supremo na Terra.

Apenas porque eu o iniciei, não significa que poderá iniciar alguém mais. Não é como se eu lhe contasse uma Verdade que agora pode contar a mais alguém. Frequentemente, ouço que um Mestre iniciou alguém, e o discípulo segue iniciando outro, e então este prossegue para outro mais – como descendentes de uma família. Esse tipo de iniciação não tem valor algum. A verdadeira iniciação tem de ser feita por um Mestre Deus-realizado; não pode ser feita por procuração. Se um Mestre tem o poder espiritual de iniciar um discípulo diretamente no plano oculto, não há problema. Mas, se diz que pode iniciar alguém através de um discípulo que ainda é um iniciante, esse tipo de iniciação é um absurdo. Quando pessoas nos Estados Unidos dizem que foram solicitadas a iniciar outras por seu Mestre espiritual na Índia, então não se trata mesmo de iniciação; é só ilusão. A iniciação tem de ser feita diretamente por um Mestre, no plano físico ou nos planos interiores.

Quando o Guru inicia um discípulo, ele o aceita sem reservas e incondicionalmente. Mesmo se o discípulo parte após a iniciação, pensando mal do Guru, o Guru atuará em e através desse discípulo para sempre. O discípulo pode até ir a outro Guru, mas o Guru que o iniciou sempre ajudará aquele buscador no mundo interior. E, se o novo Guru é suficientemente nobre, permitirá que o Guru original aja em e através do discípulo. Embora a conexão física com o Guru original esteja cortada, e fisicamente o Guru não veja o discípulo, espiritualmente ele está fadado a ajudá-lo, pois fez uma promessa ao Supremo.

Mesmo se o discípulo não buscar outro Guru, mas simplesmente sair do caminho da Verdade, ainda assim, seu Guru original tem de manter a promessa. O discípulo pode sair do caminho espiritual por uma encarnação, duas ou mesmo muitas encarnações, mas seu Guru – esteja ele encarnado ou nas regiões superiores – constantemente olha pelo discípulo e espera pela oportunidade de ajudá-lo ativamente, quando ele uma vez mais retornar ao caminho espiritual. Na verdade, o Guru é sinceramente desapegado, mas como fez uma promessa ao discípulo e ao Supremo no discípulo, ele espera indefinidamente por uma oportunidade de conduzir o discípulo para a Meta.

Alguns dos meus discípulos que em algum momento seguiram meu caminho com toda a sinceridade também me deixaram com toda a sinceridade. Mas, se eles são meus discípulos no mundo interior, se eu já os havia aceitado e eles eram meus discípulos verdadeiros, então gostaria de dizer que não os esqueci. Eles podem levar uma, duas, cinco ou seis encarnações para retornarem à vida de aspiração, mas não importa quanto tempo levem, eu os ajudarei nas suas marchas em direção à Deus-realização.

Devido à promessa que fiz à alma do meu discípulo e a Deus, sou mais responsável por meu discípulo do que ele próprio. Mas, quem me permite assumir essa responsabilidade? É o discípulo! Estou à mercê dos meus discípulos. Agora mesmo, Deus é uma ideia vaga para eles, de modo que hoje podem me aceitar e amanhã podem me deixar. No plano exterior, o discípulo pode me deixar, mas, enquanto o Supremo desejar que eu me concentre naquela pessoa e envie Sua Luz para aquela pessoa, eu tenho de fazê-lo. Após deixar nosso caminho, o discípulo pode seguir algum outro caminho ou mesmo nenhum. Mas, uma vez que eu aceite alguém, a menos e até que o Supremo me diga que aquela pessoa está em outras mãos, eu sou responsável por ela.

Eu digo aos meus alunos, “Estou pronto para assumir todos os seus problemas, desde que você esteja pronto para sentir que é por mim e apenas por mim. Se sua dedicação fica dividida aqui e ali, nesse e naquele grupo, e se vem meditar no nosso Centro só de vez em quando, então, mesmo que diga que eu sou o seu Mestre, você me tornou impotente para fazer algo por você. Se verdadeiramente me der a sua completa existência, interior e exterior, somente então poderei fazer algo por você. É na força da minha total unicidade com você e na sua aceitação de mim que eu posso assumir os seus problemas.”

Quando um Mestre da maior grandeza diz que você tem uma relação eterna com ele, ele está falando pela força da sua absoluta unicidade com o Supremo e com a sua alma. Ele sabe que você estará sempre sob sua orientação interior. E quando realizar o Altíssimo, verá que a suprema Consciência que realizou é a mesma Consciência que o Mestre representou na Terra. Um verdadeiro Mestre espiritual incorpora a infinita Consciência do Supremo e a representa na Terra.

Quando o Mestre fala de uma relação eterna, trata-se de uma relação de aceitação mútua. O Mestre não diz, “Quer você esteja consciente disso ou não, eu manterei minha eterna conexão com você e seremos eternamente um.” Não, se o Mestre tem verdadeiramente a capacidade de estabelecer essa eterna relação com o discípulo, então ele também tem a capacidade de fazer o discípulo sentir que ele o fez. O Mestre oferece essa mensagem para a alma do buscador, e o buscador sente que sua conexão interior com seu Mestre durará para sempre. Então, com sua extrema doçura, carinho, compaixão, gratidão e orgulho, o Mestre aceita o discípulo de todo o coração e permanentemente. E o discípulo tem o mesmo sentimento pelo Mestre; ele sente que seu Mestre não é uma entidade separada, mas sim ele mesmo, o próprio discípulo. Ele sente que o mais elevado, o qual chama de Mestre, é sua própria parte mais iluminada. Quando tem esse tipo de sentimento, essa espécie de realização, então a relação eterna entre Mestre e discípulo poderá ter o seu início.

A relação eterna entre o Mestre e o discípulo possui relevância somente no caso de um Mestre realizado. Se o Mestre não é completamente realizado, então está só enganando o discípulo. Há muitos Mestres que não realizaram Deus e ainda assim dizem, “Oh, nós temos uma eterna conexão. Tomarei conta de você, mesmo após eu ter deixado o meu corpo.” Quando esse tipo de Mestre deixa o corpo, o discípulo poderá chamar por seu Mestre constantemente, mas não obterá resposta. Mesmo no plano físico esse tipo de Mestre é sem utilidade. Ele só pode fazer falsas promessas.

O principal objetivo da iniciação é trazer a alma à tona. Se não há iniciação, a purificação do corpo, do vital, da mente e do coração nunca poderá ser completa. Se não há iniciação, a Meta altíssima nunca poderá ser realizada. Os que são próximos de mim sentiram o real florescimento de suas iniciações no momento que, do fundo do coração, dedicaram ao Supremo em mim suas vidas por completo – corpo, vital, mente, coração e alma. Esse florescimento da iniciação é verdadeiramente mais do que iniciação. É a revelação da própria divindade interior dos discípulos. Nesse momento, eles sentem que eles e seu Guru se tornaram totalmente um. Sentem que seu Guru não possui existência sem eles e que eles não têm existência sem seu Guru. O Guru e o discípulo se completam mutuamente e sentem que essa satisfação vem diretamente do Supremo. E o maior segredo que o discípulo aprende do Guru é que somente satisfazendo o Supremo primeiro pode ele trazer plenitude ao resto do mundo.

Como pode o Guru satisfazer ao Supremo? O Guru faz a sua parte assumindo a ignorância, imperfeição, obscuridade, impureza e indisposição do discípulo, conduzindo-as com fé e devotadamente ao Supremo. O discípulo satisfaz ao Supremo permanecendo constantemente no barco do Guru e no mais profundo recesso do coração dele, sentindo que existe somente para a satisfação divina de seu Mestre. Satisfazê-lo, manifestá-lo: essa é a única razão, o único propósito, o único significado da vida do discípulo.

5.

O Guru não é o corpo. O Guru é a revelação e manifestação de um Poder divino sobre a terra.

6.

Encontrar Deus sem um intermediário
Pode não ser impossível,
Mas é certamente a mais ambiciosa
Empreitada montanha-escalada.

7.

Você recebeu alguma ajuda para aprender o alfabeto? Requisitou um professor para ajudá-lo a aprimorar-se em seu instrumento musical? Recebeu instrução para capacitar-se a receber o seu diploma? Se precisou de quem o ajudasse a fazer essas coisas, também não necessitará de um professor que possa guiá-lo no conhecimento do Divino – a sabedoria do Infinito? Esse professor é o seu Guru e ninguém mais.

8.

The Guru and the disciple must test each other sweetly, seriously and perfectly before their mutual acceptance. Otherwise, if they are wrong in their selection, the Guru will have to dance with failure and the disciple with perdition.

9.

O que significa a aceitação do discípulo por um Guru? Significa que o Guru viverá alegremente no mundo de dourado sacrifício.

10.

A suprema iniciação é quando o Mestre diz ao discípulo, “Tome o que eu tenho”, e o discípulo diz ao Mestre, “Tome a mim como eu sou.”

Parte II — Escolhendo um Guru

1. Escolhendo um Guru

Um grande professor inspira
O buscador.

Um grande professor aspira
Em e através do buscador.

Um grande professor sabe
Que, da jornada do buscador,
Ele é a alma
E também a meta.

Há três tipos de professores espirituais. Um diz: “Eu farei tudo por você, minha criança. Nada há para se fazer. Você pode dormir, pode beber, aproveitar a vida vital ou não fazer nada. Permaneça apenas no seu próprio mundo e eu lhe darei realização e libertação. Você não tem de fazer nada.” Seria bom permanecer a milhares de milhas distante desse tipo de Mestre espiritual.

O segundo tipo de professor diz, “Eu disse o que a Verdade é, e tentei inspirá-lo. Eu fiz a minha parte; agora, você tem de trabalhar duro para alcançar a sua meta. Agora deve descobrir a sua própria divindade interior.” Essa espécie de professor não resolve problema algum do discípulo. Esse professor espiritual é fraco, ainda que seja sincero.

E há o terceiro tipo de professor. Em sua absoluta unicidade com o Altíssimo, ele diz ao discípulo, “Minha criança, vamos andar juntos. Você deve aspirar, e eu trarei Graça e Compaixão infinitas do Supremo. Eu tenho a minha própria salvação, mas andarei junto com você e o guiarei. Vamos trabalhar juntos.” Esse é o verdadeiro professor espiritual.

Como pode um aspirante saber se um Mestre que professa ser realizado o é realmente? Um Mestre espiritual Deus-realizado não é alguém com asas e auréola para identificá-lo. Ele é normal, exceto que em sua vida interior ele tem Paz, Luz e Beatitude. Então, se procurar um Mestre espiritual esperando algo diferente de Paz, Luz, Beatitude e Poder sem limites, ficará desapontado. Todavia, deve saber se é capaz de julgar. Se não sei coisa alguma sobre ciência médica, como poderei avaliar um grande médico? Somente outro médico saberia como julgá-lo adequadamente.

Em sua vida espiritual, um buscador verdadeiro que tenha aspiração e dedicação sinceras já alcançou um pouquinho de Luz interior. Devido à sua aspiração, Deus lhe concedeu um tantinho de Luz, e, com esta Luz, ele está fadado a ver e sentir algo em um verdadeiro Mestre espiritual. Se alguém é verdadeiramente avançado na vida espiritual e está fazendo progresso rápido em sua jornada interior, então sua aspiração é o melhor juiz para decidir se um Mestre espiritual é genuíno ou não. O melhor juiz é a aspiração sincera de cada um.

Um Mestre não realizado pode enganá-lo por um dia, um mês ou alguns anos, mas não para sempre. Se a sua aspiração sincera é cem por cento pura, e você não quer nada senão Deus, então Deus não o deixará indefinidamente com um Mestre não-realizado e insincero. É impossível!

Frequentemente aparece quem tenta julgar se o Mestre é perfeito ou não. Mas eles podem facilmente errar. Se o Mestre é genuíno – ou seja, se realizou Deus – o que pode parecer-lhes fraqueza no Mestre não é o que os retardará em sua auto-realização.

As chamadas fraquezas humanas são uma coisa; mas se o Mestre é indulgente quanto ao vital inferior, quanto à vida sexual, então o Mestre é muito ruim, sendo melhor deixá-lo. Se não sente pureza no Mestre, se não vê nele a perfeição da sua vida vital inferior, a vida emocional, então deve manter grande distância dele. Pois como conseguiria dele a perfeição para a sua própria vida vital?

Alguns Mestres são genuinamente realizados, e mesmo assim alguns de seus discípulos os deixam. Mas você acredita que um Mestre não seja realizado só porque algumas pessoas o deixaram? Não, são as imperfeições e limitações dos aspirantes que os afastam de seus Mestres. Alguns atingem um certo ponto e, então, seus egos ou seus vitais vêm à tona e eles não querem mais prosseguir.

Após aceitarem a vida espiritual por dois, seis ou mesmo dez anos, algumas pessoas se cansam. Se alguém se cansa do caminho espiritual, não é necessariamente porque esse seja o Plano do Supremo. Assim, não julgue um Mestre apenas porque muitos o deixam. Muitos partirão, mas muitos outros virão.

Mesmo se um Mestre é genuíno, pode não ser o Mestre escolhido para você. Como poderá saber se encontrou o seu próprio Mestre? É assim: pode haver muita gente à sua volta, mas quando vê uma determinada pessoa, você imediatamente sente alguma alegria. Isso significa que a sua alma tem alguma conexão com essa pessoa. Dez pessoas podem estar bem à sua frente, e por nove delas você nada sente. Mas o rosto de uma pessoa ou sua mera presença lhe trazem alegria. Nesse caso, é porque essa pessoa tem alguma conexão interior com você.

Se há uma conexão interior com um Mestre genuíno, é provável que ela tenha existido por muitas encarnações. Então, no momento que você vê esse Mestre, sente alegria ilimitada e transbordante. Todo o seu ser fica carregado de luz e alegria interiores. Você sente que a sua vida finalmente encontrou sua origem no Mestre. Você sente que é uma folha e o Mestre, a árvore. O Mestre espiritual que lhe traz alegria imediata, espontânea e ilimitada é o seu Mestre. Às vezes, se tiver sorte, poderá encontrar o seu Mestre na primeira vez que vir um Mestre espiritual. De outro modo, poderá ter de ir a vários Mestres espirituais.

Quando encontrar um Mestre cuja simples presença lhe traga imediatamente inspiração, alegria, paz e deleite, então deve fazer a si mesmo a última e absolutamente mais importante pergunta: “Se este Mestre não me der realização, libertação ou qualquer coisa que eu queira, ainda assim estou disposto a dar-lhe meu amor, minha devoção, minha entrega, minha vida?” Se a resposta for: “Sim, eu nada quero dele, exceto a permissão para servi-lo e dar-lhe o que tenho e o que sou”, saberá com certeza que é ele o seu Mestre; certamente ele é o seu Mestre.

Há um ditado, “Quando o aluno está pronto, o professor aparece.” Porém, ocorrem muitas vezes, centenas de vezes, em que o Mestre aparece, o discípulo também está pronto, mas há um véu de ignorância diante do discípulo. Ele não vê a luz, embora a luz esteja bem diante dele. Se o seu próprio professor parar diante de você e abençoá-lo vinte vezes, mesmo assim poderá não o reconhecer. O professor reconhece você, mas ele não pode dizer: “Você é meu aluno”, porque poderá ser mal interpretado. Você poderá pensar, por exemplo: “Eu tenho milhões de dólares. Por isso ele está dizendo que sou seu discípulo. Ele está pedindo-me para ser seu discípulo apenas para pegar meu dinheiro ou isto ou aquilo de mim.”

Neste mundo, apenas quando descobrimos algo por conta própria sentimos que aquilo é verdadeiro. Quando outro alguém descobre algo e nos diz, nós desacreditamos, duvidamos. Se a descoberta de que eu seja o seu Mestre vem de dentro de você mesmo, então você sente que é sua própria descoberta; mas se eu o disser, você pensará ter todo direito de duvidar de mim. Vi muitos buscadores sinceros que estavam destinados a serem meus discípulos e, cedo ou tarde, de fato tornaram-se meus discípulos; mas algo os impedia de me aceitarem naquela época. Dizer-lhes não teria acelerado seu reconhecimento de quem eu sou. Ao contrário, apenas os teria atrasado mais. Assim, fico em silêncio, para que no tempo certo eles possam ter a satisfação da própria descoberta.

Na vida espiritual, há professores que podem instruí-lo por alguns anos e há outros que podem ensiná-lo desde o jardim de infância até os mais avançados cursos universitários. Eles têm a capacidade para alçá-lo aos mais altos níveis. Mesmo que um professor seja sincero, se não tem capacidade para conduzi-lo ao topo, naturalmente você o deixará quando chegar tão longe quanto ele puder levá-lo. Contudo, existem os assim chamados Mestres que não têm capacidade alguma para ensinar, mas que tentarão conservar você próximo o máximo que puderem, apenas para que possam explorá-lo. Todavia, é você quem tem de saber se o professor é capaz de ajudá-lo. O seu ser interior lhe dirá se você está progredindo satisfatoriamente ou não. No momento que sentir que, apesar da sua sinceridade, não está mais progredindo, não perca mais o seu tempo. Você tem todo o direito de deixar o professor à hora que quiser.

Entretanto, o que ocorre algumas vezes é que o professor tem conhecimento verdadeiro, genuíno, mas o aluno não quer apreender a verdade do jeito que o professor quer ensinar – ou melhor, do jeito que o Divino quer que o professor ensine. Com frequência, infelizmente, quando o professor espiritual diz ou desvela a verdade, é mal interpretado pela mente duvidosa do aspirante. O aspirante faz uma pergunta, mas a dúvida na sua mente não lhe permite aceitar a resposta. Então, não importa quão verdadeira, relevante e sublime a resposta possa ser, ela será inútil para o buscador.

Alguns aspirantes mudam de professor quase todo mês. Hoje, este professor, amanhã, aquele, no dia seguinte, algum outro. Eles são extremamente inquietos e nunca alcançarão a iluminação.

Um professor é como um barco. Quando está num barco, fica a salvo. Mas, se tiver uma perna num barco e outra perna em outro barco, então cairá no mar da ignorância. Quando você está sentado com segurança em meu barco ou no barco de algum outro, então o barqueiro é capaz de conduzi-lo à outra margem. Uma vez alcançado o destino, verá que todos os barcos chegaram por diferentes rotas. A meta é uma só, mas os caminhos são muitos. Você não pode mudar constantemente de caminho e esperar ter a mesma velocidade. O buscador deve ser sábio, cuidadoso e discriminador.

Roma é um lugar, porém há muitas estradas para se chegar lá, e cada viajante toma uma estrada diferente. Cada Mestre está certo a seu próprio modo. Mas, uma vez que escolheu um Mestre, você tem de aderir ao caminho dele com total dedicação e entrega. Porque você pode viajar somente por uma estrada de cada vez.

Um Mestre ensina tal coisa, outro Mestre ensina outra e um terceiro Mestre ensina algo completamente diferente. Você pode encarar como diferentes matérias numa escola: história, geografia, filosofia, e assim por diante. Mas eu gostaria de dizer que na vida espiritual há somente uma matéria: Deus-realização. Para este assunto, o mais importante, o mais profundo assunto, você deve seguir um caminho. Se for o caminho da devoção, ótimo. Se for o caminho do conhecimento, ótimo. Se for o caminho do serviço desinteressado, ótimo. Também, poderá abordar todos num só. Quando realizar Deus, todos os caminhos se tornarão um; os três mais importantes caminhos, devoção, conhecimento e serviço desinteressado inevitavelmente se fundem num só.

Não podemos dizer que nosso caminho seja, de longe, o melhor para todos. Não sejamos tolos. Podemos, apenas, dizer que nosso caminho é o caminho do amor, devoção e entrega. Se outros querem aceitá-lo, ótimo. Nosso caminho é o melhor para nós e permanecemos nele porque é o caminho que o Supremo deseja que sigamos. Os outros também têm de encontrar o melhor caminho para si.

O caminho espiritual, a jornada da vida interior, é um processo para toda a vida. Somente se estiver disposto a seguir através desta longa disciplina você encontrará o seu verdadeiro Mestre. Quando estuda, precisa ter seriedade para passar nos exames. Do mesmo modo, deve ter extrema seriedade e sinceridade na vida espiritual. Primeiro busque em seu interior profundo e sinta se quer um Mestre espiritual para guiá-lo pelo resto da vida, e se poderá ouvi-lo totalmente, com todo o coração e incondicionalmente. Se sente que pode seguir um Mestre com fé e devoção e dar a sua vida ao caminho, então o Mestre está fadado a aparecer para você. Se sente que não existe nem pode existir sem a vida espiritual, então tenha certeza de que você está pronto para a vida espiritual. Se sente que não pode continuar na Terra sem paz interior, sem alegria interior, sem a orientação viva de Deus através de um Mestre espiritual – se chegou a este estágio – então está fadado a conseguir um Mestre espiritual em breve.

Não há um único buscador na Terra que fique sem um professor, se estiver desesperadamente necessitado de um. Se sua aspiração é intensa, se seu clamor interior está ascendendo constantemente, como pode Deus permanecer indiferente? Foi Deus quem acendeu a chama da aspiração nesse buscador, e será Deus quem trará um Mestre para ele ou o colocará aos pés de um Mestre espiritual.

2.

Há uma grande diferença entre conhecer o professor e conhecer seus ensinamentos. Seus ensinamentos mostram ao mundo o que ele tem, mas o que ele é, é um outro nome para Visão da Eternidade.

3.

A mente batalhadora de um buscador precisa do caminho certo.
O coração inquiridor de um buscador precisa do professor certo.
A alma aspirante de um buscador precisa do Deus certo.

4.

Não se mate preocupando-se
Com falsos professores.
O seu abrigo-sinceridade o protegerá
E definitivamente também o ajudará
A encontrar um verdadeiro professor.

5.

Somente um falso professor espiritual
Pensa e sente
Que apenas ele é perfeito,
E que os demais
Professores espirituais
São todos falsos.

6.

O seu Mestre não se esconde de você.
São os seus olhos sem visão
E a sua mente preguiçosa
Que não o permitem reconhecê-lo
Mesmo quando ele está em pé,
Bem à sua frente,
Com o Olho-Compaixão de sua Eternidade.

Parte III — O Mestre realizado

1. The realised Master

Não aqui, mas bem longe,
Está o mundo de paz-silêncio.
Para cá e a nenhum outro lugar
Uma alma Deus-realizada trará
Aquele mundo de paz-silêncio.

Deus-realização é Auto-descoberta no mais elevado sentido do termo – a percepção consciente da sua unicidade com Deus. Enquanto permanecer em ignorância, sentirá que Deus é um outro ser, que tem Poder infinito, e que você é a mais débil pessoa na Terra. Mas, no momento que realizar Deus, virá a saber que você e Deus são absolutamente um, tanto na vida interior quanto na exterior. Deus-realização significa a sua identificação com seu próprio e absolutamente mais elevado Eu. Quando puder identificar-se com o seu mais elevado Eu e permanecer nessa consciência para sempre, quando puder revelá-la e manifestá-la à sua ordem, então saberá que realizou Deus.

Você estudou livros sobre Deus e disseram-lhe que Deus está em todos. Mas não realizou Deus em sua vida consciente. Para você, isto é tudo especulação mental. Mas, quando se é Deus-realizado, sabe-se conscientemente o que Deus é, com que Ele Se parece e o que Ele deseja. Quando alcança a Auto-realização, você permanece na Consciência de Deus e fala com Deus face a face. Você vê Deus no finito e no Infinito, vê Deus como pessoal e impessoal. Isto não é alucinação mental nem imaginação, é realidade direta. Essa realidade é mais autêntica do que a visão que tenho de você diante de mim. Quando alguém fala com um ser humano, há sempre um véu de ignorância – escuridão, imperfeição, desentendimento. Mas entre Deus e o ser interior de alguém que O realizou, não pode haver ignorância e nem véu algum. Portanto, poderá falar com Deus mais claramente, mais intimamente, mais abertamente do que com um ser humano.

É dentro do humano que o divino existe. Não precisamos viver em cavernas nos Himalaias para provar nossa divindade; essa divindade podemos externar em nossa vida normal cotidiana. Infelizmente, passamos a sentir que espiritualidade é anormal porque vemos muito poucas pessoas espirituais neste mundo de ignorância. Todavia, a verdadeira espiritualidade significa aceitação da vida. Primeiro temos de aceitar a vida como ela é, e depois devemos tentar divinizar e transformar a face do mundo com nossa aspiração e realização.

Às vezes, as pessoas pensam que alguém realizado seja completamente diferente de uma pessoa comum e se comporte de maneira muito incomum. Eu gostaria de dizer que uma pessoa realizada não precisa e nem deve comportar-se estranhamente. O que ela realizou? Ela realizou a Verdade última em Deus. E quem é Deus? Deus é alguém ou algo absolutamente normal. Quando alguém realiza o Altíssimo, isto significa que tem Paz, Luz e Beatitude em medida infinita, e não que sua aparência exterior ou seus traços sejam diferentes. Não significa que se tornará, de algum modo, anormal. Ele é normal. Mesmo após um Mestre espiritual realizar o Altíssimo, ele ainda come, fala e respira como todo mundo.

Pessoas não-espirituais frequentemente pensam que um Mestre, se ele é verdadeiramente realizado, tem de fazer milagres a toda hora. Mas milagres e Deus-realização não necessariamente andam juntos. Quando olha para um Mestre espiritual, o que vê é Paz, Luz, Beatitude e Poder divino. Basta entrar nele e logo sentirá essas coisas. Mas, se espera algo mais de uma alma realizada, se vai a um Mestre espiritual pensando que ele satisfará os seus inúmeros desejos e o fará multimilionário, você está fadado ao desapontamento. Se é a Vontade do Supremo, o Mestre pode facilmente trazer prosperidade material em abundância e tornar alguém um milionário de um dia para o outro. Mas geralmente não é essa a Vontade do Supremo. A Vontade do Supremo é prosperidade interior, e não profusão exterior.

Um Mestre realizado é como alguém que sabe como subir e descer de uma árvore muito bem. Quando o Mestre desce, ele não perde coisa alguma, pois sabe que no momento seguinte será capaz de subir outra vez. Imagine uma criança ao pé da árvore, dizendo: “Por favor, dê-me uma deliciosa manga.” Imediatamente, o Mestre trará uma para baixo e depois subirá de novo. Se ninguém mais pedir mangas, ele se sentará no galho e esperará.

Se você dorme profundamente e alguém o belisca e grita “Acorde! Acorde!”, essa pessoa não está fazendo-lhe um favor. Você ficará irritado. O Mestre espiritual não o incomodará; ele não pedirá que acorde. Ele fica ao lado da sua cama e espera até que você acorde e, no momento em que o fizer, ele pedirá que olhe para o sol.

Aqui na Terra, se alguém tem algo a oferecer e o outro não aceita, o primeiro fica furioso, e diz: “Seu tolo! É para o seu próprio bem que estou dando-lhe isto.” Ele briga com o outro e fica muito aborrecido se sua oferta não é aceita. Já no caso de um Mestre espiritual, é diferente. Ele vem com sua riqueza, mas se a humanidade não a aceita, ele não reprova a humanidade. Mesmo se a humanidade o insulta e fala mal dele, ele não reclamará a Deus. Com sua ilimitada paciência, ele dirá: “Tudo bem, hoje vocês dormem. Talvez amanhã possam acordar e ver o que tenho a oferecer. Eu esperarei por vocês.”

Um verdadeiro Mestre espiritual não perde nada se a Terra rejeita o que ele tem, porque ele está bem estabelecido em sua vida e consciência interior. E, se a humanidade aceita o que ele oferece, ele também não perde nada. Quanto mais dá, mais recebe da Fonte. Isto não acontece com aspirantes comuns nem falsos Mestres. Se derem algo, não poderão repor. Mas o Mestre, que está em contato com ilimitada capacidade no mundo interior, tem um oceano infinito por fonte. Ninguém pode esvaziar o infinito oceano interior.

O verdadeiro Mestre quer dar tudo a seus devotados discípulos, mas o poder de receptividade deles é limitado. Então, ele tenta ampliar seus receptáculos, para que se tornem capazes de receber a Paz, Luz e Beatitude que ele traz. Contudo, ele não pode forçar um aspirante a receber mais do que pode reter. Senão, o receptáculo do buscador poderá se partir. Um Mestre pode apenas verter, verter e verter sua infinita Luz sobre seus discípulos, mas, atingido o limite de suas capacidades, qualquer algo mais que dê será perdido.

Alguns Mestres são muito seletivos e querem apenas almas completamente dedicadas, que aspiram intensamente e estão absolutamente destinadas à vida espiritual. Sri Ramakrishna, por exemplo, quis apenas um número limitado de discípulos, e foi muito rigoroso sobre quem aceitava. Mas alguns Mestres dizem: “Qualquer um que deseje aprender algo sobre a vida espiritual é bem vindo à minha comunidade. Que cada um progrida de acordo com sua própria capacidade.” Assim, eles aceitam milhares de discípulos.

Mas, independente do número de discípulos que aceitem, se são verdadeiros Mestres espirituais, aceitam somente aqueles predestinados para eles. Se eu sei que alguém fará progresso mais rápido através de algum outro Mestre, então oculta e espiritualmente farei com que ele sinta em poucos meses que não é destinado a estar comigo. O que importa não é o número de discípulos que um Mestre tem, mas sim se ele os leva até a Meta. Se eu sou realizado e outro também é, nós somos como dois irmãos de um mesmo Pai. A nossa meta é levar nossos irmãos e irmãs mais novos ao Pai. O jogo estará terminado somente quando toda a humanidade for levada a Deus. Se dois Mestres são verdadeiros irmãos, como pode um ficar infeliz ou aborrecido se alguém vai a seu Pai através de outro? Na vida espiritual, o que importa não é quem faz algo, mas que a coisa seja feita. Quem faz é uma mera questão de nome e forma, os quais serão apagados pela história. O que importa é que houve evolução na Terra.

Todavia, saiba que o verdadeiro Mestre se preocupa muito que os discípulos destinados a ele de fato venham até ele. Sri Ramakrishna costumava ir ao andar de cima de sua casa e clamar por discípulos espirituais. E costumava perguntar à mãe Kali por que os discípulos que ele estava destinado a ter não chegavam. Alguém poderia questionar por que ele não podia esperar pela Hora de Deus. De fato, a Hora de Deus havia chegado para Sri Ramakrishna, mas a ignorância do mundo a estava impedindo. Deus lhe dissera que fizesse algo e lhe dera a capacidade, mas a ignorância estava plantada diante dele atrasando, atrasando e atrasando a sua manifestação. Sri Ramakrishna não chorava por discípulos que tocassem seus pés. Ele clamava por discípulos que fossem seus braços e mãos, que voassem com ele na Consciência Universal, que trabalhassem para ele e, portanto, trabalhassem para Deus.

Ninguém é indispensável, é verdade. Mas, ao mesmo tempo, cada pessoa é indispensável enquanto for absolutamente sincero em sua aspiração e em seu serviço à Missão do Supremo. Por orgulho e vaidade, ninguém deve sentir-se necessário; mas todos são necessários se são instrumentos escolhidos de Deus, sinceros e dedicados. O Mestre precisa de discípulos porque eles são a expressão da sua própria consciência. Quando recebe o Comando do Altíssimo para fazer algo na Terra, ele precisa tentar encontrar aqueles que serão parte e parcela da sua consciência, para ajudá-lo a cumprir aquela Ordem.

Tradicionalmente, os Mestres espirituais costumavam dizer: “Se tens algo, os outros virão. O poço não vai aos que têm sede; quem tem sede vai ao poço.” Isto é absolutamente certo se é uma pessoa madura que tem sede. Mas, se quem tem sede é ainda uma criança, então é diferente. O bebê chora em seu quarto, e a mãe tem de correr até ele para alimentá-lo. A mãe não diz ao bebê, “Você é quem tem de vir, pois é você quem deseja algo de mim.” Não, a mãe larga tudo e corre para o bebê. Igualmente, no mundo espiritual alguns Mestres sentem que precisam sair pelo mundo, porque percebem que o mundo exterior é apenas um bebê em se tratando de consciência. Esses Mestres sentem que há muitas crianças implorando por vida espiritual, sabedoria espiritual, perfeição espiritual, mas que não sabem onde e nem como encontrá-las. Então, os Mestres vão de um lugar para outro oferecer sua luz com a ideia de servir à divindade na humanidade.

Quando o mundo chora por alimento interior, se nós temos a capacidade, temos de alimentá-lo. Se tenho a capacidade de dar-lhe algo e também a capacidade de colocar-me bem diante de você, por que deveria chamá-lo até mim? Se tenho a capacidade de colocar-me diante de você e dar-lhe o alimento espiritual que você deseja, então eu devo fazê-lo.

2.

Uma alma verdadeiramente Deus-realizada
Deve alegremente descer
Até os assuntos humanos terrenos.

3.

Ele não medita
Pela própria realização.
Isto já está feito!
Ele medita
Pela sua iluminação.

4.

Um verdadeiro Guru é um desprendido, dedicado e eterno mendigo, que implora a Deus onipotência e onipresença para alimentar seus discípulos inconscientemente famintos e conscientemente aspirantes – em perfeita conformidade com as necessidades de suas almas.

5.

O Guru é o ímã espiritual constantemente puxando o discípulo em direção à infinita Luz do Supremo.

6.

Ele sozinho é o líder divino, aquele que tem a capacidade de implantar inspiração no cerne da alma humana.

7.

Um verdadeiro Mestre espiritual deve assumir
As incontáveis responsabilidades
Da sua família espiritual.
Mas também ele permanece
Numa consciência de criança
Para encher suas crianças-buscadoras
Com a alegria e o deleite
De Deus, a eterna criança.

Parte IV — O Mestre e o discípulo

1. O Mestre e o discípulo

Um verdadeiro Mestre espiritual é aquele que tem unicidade inseparável com o Altíssimo. Por via de sua unicidade, ele pode facilmente entrar no buscador, ver seu desenvolvimento e aspiração, e saber tudo sobre sua vida interior e exterior. Quando o Mestre medita em frente aos seus discípulos, está trazendo Paz, Luz e Beatitude das Alturas, e isso entra neles. E do interior eles aprendem automaticamente como meditar. Todos os verdadeiros Mestres espirituais ensinam meditação em silêncio. Um Mestre genuíno não precisa explicar exteriormente como meditar ou dar-lhe uma forma específica de meditação. Ele pode simplesmente meditar em você, e seu olhar silencioso o ensinará como meditar. A sua alma entra na alma dele e traz dela a mensagem, o conhecimento de como meditar.

Alguns não entendem o Mestre quando ele se põe em pé diante deles e ora. Pensam que, como eles próprios, ele também está rogando por Graça. Pensam: “Por que pedir ajuda ao Mestre? Façamos isso nós mesmos.” Eles não percebem que há uma vasta diferença entre as suas preces ou clamores e as do Mestre. Quando o Mestre ora por Luz, ele se torna Luz. Quando ele faz descer Graça, ele se torna a fonte da Graça do Supremo. Nessas ocasiões, aqueles que têm fé no Mestre obtêm Dele a Graça que tudo-alimenta e tudo-preenche.

Discípulos que passam por dificuldades ou que estão adoecidos frequentemente pedem ajuda ao Mestre. Então, quando o Mestre usa seu poder espiritual para curá-los, eles logo começam a elogiar seus médicos ou o maravilhoso remédio que usaram. O Mestre não precisa dos seus elogios. Se quiserem dizer que ele não os merece, o Mestre está pronto a concordar. Todavia, a gratidão deve ir para o Supremo e não para os médicos ou para algum remédio. Às vezes, as pessoas sentem a Graça que foi trazida, mas pensam que elas a trouxeram através de sua aspiração, ou que a mereciam de uma forma ou de outra. Nessas ocasiões, o Mestre fica calado, esperando pelo dia em que o discípulo perceba a verdade por si mesmo. Interiormente, ele encaminha a mensagem à alma do buscador e, após algum tempo, a alma levará a mensagem à consciência exterior do buscador, tornando a verdade conhecida.

O Mestre é como um oceano. Quando o discípulo mergulha no oceano que é a consciência do Mestre, ele é lavado de todas as suas impurezas e num instante sente um alívio temporário. Você pode perguntar: “Para onde vão as impurezas e imperfeições depois de entrarem no Mestre?” O Mestre as lança na Consciência Universal. Após alguns minutos, uma hora ou um momento específico, todas se vão dele. Às vezes, o Mestre não as toma de fato, mas simplesmente as oferece diretamente ao Supremo. O Mestre abençoa o discípulo em nome do Supremo, como Seu representante direto, e dessa forma não fica afetado.

Quando o Mestre remove as impurezas do discípulo, não significa que o discípulo esteja curado delas. Amanhã, novamente, o discípulo voltará com os mesmos pensamentos impuros e ideias não-divinas, porque não está superando tais qualidades obscuras em seu interior. Hoje, ele envia suas limitações para o Mestre, mas amanhã ele as acumulará de novo. Portanto, quando o buscador oferece suas imperfeições ao Mestre, deve tentar receber o máximo de Luz possível do Mestre. Se puder guardar no seu receptáculo interior a Paz, Luz e Beatitude que o Mestre oferece, poderá então ser capaz de lutar contra adicionais imperfeições em sua vida. A menos e até que o discípulo seja capaz de reter a riqueza que recebe das bênçãos do Mestre, ele não será capaz de alcançar pureza e fazer verdadeiro progresso interior – muito menos realizar a Verdade transcendental altíssima.

Uma pessoa Deus-realizada sempre pode estar feliz em sua consciência interior, onde há uma constante inundação de Luz e Deleite. A infelicidade do Mestre no mundo exterior vem de seus discípulos, porque ele se identifica com todas as forças ruins de que eles estão sofrendo. O Guru tem o poder de anular a lei do karma para seus discípulos, mas enquanto a anula, ele entra nos problemas deles. Para tirar alguém da água, para ajudá-lo, preciso estar dentro d’água. Ao mesmo tempo, preciso da ajuda consciente daquele que está se afogando. Quando o Mestre não recebe cooperação dos discípulos, quando os discípulos guardam suas qualidades não-divinas e não as deixam ir, ele sofre muito.

Nenhum discípulo pode fazer seu Mestre feliz se não é ele mesmo feliz interiormente. Até um pai comum não fica feliz quando vê seu filho ou filha infeliz. Sendo o Mestre um pai espiritual, nunca poderá estar feliz quando suas crianças espirituais estiverem tristes ou abatidas. Se você chora porque o seu marido é mau para você ou porque a sua esposa é má para você, a compaixão e simpatia do Mestre estarão lá presentes. Mas, se não lançar fora o sofrimento, a compaixão do Mestre não será de valia. Se você acalenta o abatimento e sofrimento, a ajuda do Mestre é inútil. Ele se identificará com o seu sofrimento e com as mágoas do seu coração, e sofrerá a dor que está sentindo – talvez até mais do que você. Mas, se não tentar conscientemente livrar-se do sofrimento e entrar na consciência iluminada do Mestre, então o sofrimento e a compaixão do Mestre terão sido em vão. Também, você não será sequer capaz de reconhecer isto. Não sentirá a infinita compaixão do Mestre porque se importa mais com o seu sofrimento do que com o amor divino do Mestre.

Quando entrega seus problemas ao Mestre, não deve sentir que está sobrecarregando-o com um fardo pesado. O Mestre está pronto para aceitar a sua ignorância. Ele veio até aqui com o mar de Luz; se oferecer a ele um mar de ignorância, isto não lhe fará mal. Mas, infelizmente, você sente que a ignorância é tão preciosa que com uma das mãos a dá e com a outra a toma de volta. Num instante, sente que a ignorância é inútil e que está feliz por dá-la ao Mestre. Pensa ser muito esperto porque lhe deu algo sem importância e conseguiu dele algo de valor em troca. Mas, no instante seguinte, a ignorância o faz sentir que aquilo que deu ao Mestre era muito mais precioso do que o que ele deu a você; sente que prazer vital é muito mais importante do que Luz. Quando está na mais profunda meditação, você sente que Luz é mais importante do que escuridão. Mas, quando na vida comum, na vida do desejo, sente que Luz é algo falso e vago – apenas uma alucinação mental.

Alguns discípulos recebem sermões do Mestre quase que diariamente. Também, há os que não recebem sermões na vida exterior sequer a cada seis meses. Mas, no mundo interior, o Mestre com frequência os repreende e ameaça, pois assumiu completa responsabilidade por eles. Muitas vezes o professor vê que a alma do buscador está mais do que ávida por seguir sua orientação, mas o vital hesita e a mente resiste. Nesses casos, se o Supremo quer que o buscador consagre a sua máxima potencialidade e mergulhe fundo no mar da aspiração, o Supremo ordena ao Mestre que mostre sua autoridade divina. É verdade que, vivendo no vital, poderá pensar que o Mestre o está repreendendo, mas, quando vive no coração, vê que é seu cuidado divino por você que está atuando. E foi você quem deu autoridade a ele; ele não a exigiu. Foi você, foi o seu coração quem deu a ele a autoridade para aperfeiçoá-lo e moldá-lo no Altíssimo, no Absoluto.

Há dois caminhos principais pelos quais o discípulo pode finalmente realizar Deus com um Mestre. Um é completa e conscientemente identificando-se com o Mestre. Ou você conscientemente se identifica com o Mestre e tenta tornar-se um com ele, ou então entrega-se à vontade dele, a qual, num verdadeiro Mestre, é nada mais do que a Vontade do Supremo.

Quando toca a água, que representa consciência, imediatamente a sensação de alívio e pureza da água entram em você. Quando toca a flor, imediatamente recebe a fragrância e a pureza da flor. Apenas pelo toque, você se identifica, e, ao identificar-se, obtém a essência daquilo. Semelhantemente, quando olha uma foto do seu Mestre em meditação, você toca a consciência dele. Então, identifica-se com ele e torna-se parte e parcela da Consciência infinita que ele realizou.

Também, através da entrega consciente ao Supremo no Mestre, você se torna tudo que ele é e tudo que ele tem. A pequena gota entra no oceano sem limites e se torna o próprio oceano. Essa entrega é a da sua parte não-iluminada à sua parte mais elevada, que é representada pelo Supremo no seu Mestre espiritual. Nesse caso, o Mestre representa o seu próprio eu mais elevado.

Um dia, Sri Ramakrishna e dois de seus discípulos mais próximos retornavam a seu ashram num barco. Os dois discípulos e Sri Ramakrishna estavam famintos. Enquanto estavam no barco, Sri Ramakrishna pediu a um deles que trouxesse suco e comida. Quando o discípulo trouxe o pedido, Sri Ramakrishna não deu a eles uma migalha sequer. Comeu e bebeu tudo sozinho! Mas, devido à identificação deles com o Mestre, devido à unicidade com ele, os dois discípulos realmente sentiram que sua fome e sede foram aplacadas. Não estavam mais com fome nem sede.

Se um discípulo estabelece essa espécie de unicidade interior com seu Mestre, então ele nada espera. A criança não espera coisas de sua mãe. Sabe que sua mãe lhe dá e continuará dando tudo, porque é o dever da mãe cuidar da criança. Da mesma forma, é dever do seu Mestre espiritual ser de constante serviço a você. Você o serve com a sua aspiração e dedicação; ele o serve com seu cuidado e compaixão. Você faz a sua parte com aspiração; esse é o seu trabalho. Ele faz a parte dele com o cuidado e a compaixão, os quais elevam a sua consciência; esse é o serviço dele.

Como você pode desempenhar o seu papel com aspiração? De manhã cedo, quando se levantar, pode dizer ao Supremo: “Oh Supremo, faça-me incondicionalmente devotado a Ti, para que eu possa servir-Te ao Teu próprio Modo.” Antes do café da manhã, pode dizer de novo. Tão logo acabe de tomar o café da manhã, diga uma vez mais. Enquanto vai para a escola ou trabalho, pode repetir mais uma vez. Antes de executar qualquer ação, conscientemente ore para ser capaz de servir ao Supremo com toda devoção e incondicionalmente. Cada vez, a vibração da sua prece durará dois, seis ou dez minutos, dependendo da qualidade alma investida. Mas cada vez que oferece esta prece, está renovando a vibração. Logo, será como um sino. Após começar a tocar o sino, ele se tornará automático e você sentirá que o sino toca constantemente em seu interior. Comece oferecendo a sua prece de manhã cedo e prossiga durante o dia. Cada vez que iniciar uma atividade, procure trazer sua devoção à tona. Assim, com cada atividade diferente, a sua devoção crescerá.

Um discípulo insincero pensa que o Mestre pode ser conquistado através de lisonjas exteriores. Entretanto, o Mestre pode ser conquistado somente pela força da devoção do discípulo ao Supremo nele e da unicidade interior e consciente com ele. A Deus-realização não pode ser alcançada dizendo-se ao Mestre que ele é grandioso ou oferecendo-se ao Mestre riqueza material. Será maravilhoso se puder dedicar a sua vida, mas a dedicação verdadeira tem de ser baseada na unicidade interior. Se o buscador quer a realização última da Verdade altíssima, o Divino no Mestre deve ser satisfeito do modo que o Divino quer ser satisfeito.

2.

O professor humano diz ao aluno,
“Trabalhe comigo e eu lhe darei tudo.”
O Professor divino diz ao discípulo,
“Eu tenho feito Deus esperar por você.
Não demore; vem comigo para vê-Lo.”

3.

Aquele é um excelente Professor espiritual
Cujos olhos são firmeza
E cujo coração é perdão.

4.

Jamais poderá ser um verdadeiro Mestre
Aquele que o aceitar como discípulo
Nas condições que você estabelecer.

5.

Porque ele é representante de Deus
Aqui na Terra,
Ele é tão cuidadoso com os corações de todos
Como é com o seu próprio.

6.

Ame o seu Mestre.
É o caminho curto
Para o progresso espiritual.

Tenha fé no seu Mestre.
É o caminho curtíssimo
Para o progresso espiritual.


Obedeça ao seu Mestre.
É o mais curto dos caminhos
Para o progresso espiritual.

7.

Não há melhor modo para um discípulo servir ao seu Guru do que ouvindo seus conselhos.

Parte V — Unicidade com o Mestre

1. Unicidade com o Mestre

A vida dele é cheia de barulho,
A vida dele é cheia de correria,
A vida dele é cheia de pressa.
Ele é uma imagem da insinceridade,
Ele é uma imagem da ingratidão,
Ele é uma imagem do fracasso.
Ele falha em silenciar a tempestade de sua carne,
Ele falha em sair do abismo de sua dúvida,
Ele falha em sepultar o caixão do seu medo.
Ainda assim
Ele será salvo,
Ele será libertado,
Ele será completo.
Pois
Ele ouviu os passos de seu Mestre.

Independentemente de um discípulo estar fisicamente próximo do Mestre, a porta-coração do Mestre está aberta para ele vinte e quatro horas por dia. Se o discípulo bate à porta de seu Mestre, o Mestre a abre. Mas quando ele bate, deve bater com sua aspiração sincera, e não com seu vital de exigências. Se vier com seu vital exigente, a porta do Mestre nunca se abrirá. Mas, se vem com aspiração, agrada ao Mestre muito além da sua imaginação e, com apenas uma leve batida, a porta se abre amplamente.

Um discípulo pode agradar ao Mestre à maneira do Mestre ou ao modo do discípulo. Quando o Mestre quer ser agradado ao seu próprio modo, não significa que ele seja um autocrata, não. Isso significa que o Mestre sabe como o Supremo deseja ser agradado. No caso de um Mestre genuíno, a vontade do Mestre e a Vontade do Supremo são uma só.

Um discípulo pode melhor agradar seu Mestre não esperando coisa alguma do Mestre. Ele apenas dá e dá, oferecendo-se completa e incondicionalmente. Infelizmente, quando um discípulo oferece algo, normalmente ele espera algo específico em retorno. Isso acontece porque ele vive no mundo do dar e receber. Mas a vida espiritual não é um mercado. O Mestre sabe o que é melhor para o discípulo, e quando é a melhor ocasião para dar aquela coisa. Se o Mestre der algo fora de hora, em vez de iluminar a obscura consciência do discípulo, ele pode acabar partindo seu recipiente interior.

O poder do Mestre está fadado a iluminar o discípulo, se este tiver receptividade. Se o discípulo não é receptivo, o poder do Mestre não será de utilidade. Pelo contrário; será prejudicial. Mas, se o discípulo permite ao Mestre operar à sua própria maneira, que é a maneira que o Divino ordena, então o Supremo no Mestre é capaz de moldar o discípulo de acordo com a Vontade divina.

Há quatro meios principais através dos quais os discípulos tentam agradar o Supremo no Mestre. Primeiro, há os que querem agradar o Supremo no Mestre à maneira que o Supremo quer ser agradado. E como podem fazê-lo? Através da sua aspiração e meditação, alcançam o interior do Mestre, obtêm a mensagem que ele quer oferecer, e tentam agir de acordo. Ou deixam o Mestre adentrar neles e tentam receber suas mensagens. Todos os dias, o Mestre se comunica com as almas de seus discípulos, alimentando-os com Luz, Paz e Beatitude. Todos os dias o Mestre está dizendo às almas como podem agradar ao Supremo, e as almas estão levando a mensagem às mentes conscientes dos discípulos. Então, os discípulos ou aceitam ou rejeitam a mensagem.

Como, infelizmente, muitos discípulos não possuem capacidade para adentrar o interior do Mestre o tempo todo ou receptividade para receber a mensagem do Mestre, eles tentam, com toda sinceridade, devoção e amor, satisfazer ao Mestre do modo que sentem ser melhor. Podem sentir que, se fazem uma certa coisa, o Mestre ficará bastante satisfeito. É uma boa postura, sem dúvida, porque estão tentando sinceramente satisfazer o Supremo no Mestre – de acordo com suas capacidades ou com a intensidade das suas aspirações. Não tentam enganar o Mestre ou criar problemas para ele. Apenas tentam servir ao Supremo nele, do jeito que julgam ser melhor. O primeiro modo é muito melhor, infinitamente superior; mas essa segunda abordagem também é boa.

Há o terceiro modo. Os discípulos sentem que se o Mestre diz para fazerem algo, eles o farão; se o Mestre diz para não fazerem algo, eles não o farão. Então, se algo dá errado, o pobre Mestre tem de arcar com toda a culpa. Mas, se as coisas dão certo, imediatamente seus egos emergem e dizem, “Nossa aspiração foi a responsável por tal sucesso.”

O Mestre espiritual diz a esses discípulos, “Se eu digo, ‘Façam isto’, porque é o que suas próprias almas querem que façam, então é bom que façam. Mas, se o fizessem por via de seu próprio sentimento interior, obteriam infinitamente mais alegria, porque sentiriam como se vocês mesmos tivessem descoberto a verdade.” O Mestre já descobriu a verdade por eles. Mas agora é a vez dos discípulos descobrirem no fundo de seus próprios corações que o que eles querem e o que seu Mestre quer são a mesma coisa.

O Mestre pode dizer aos discípulos, “Façam isto! Façam aquilo!” Mas ele apenas pode dizer isso àqueles filhos espirituais que ofereceram a ele, completamente, seu corpo, vital, mente, coração e alma – e não àqueles que apenas vieram ver se ele é uma pessoa espiritual e se ele pode resolver seus problemas. O Mestre deve fazer tudo para aqueles que o aceitaram verdadeiramente. Mas os discípulos têm de saber que o Mestre está pronto a servi-los de acordo com quão profundamente contataram o seu interior e quanto realmente amam o Supremo nele.

Um discípulo sincero de qualquer Mestre espiritual sempre obterá a máxima alegria ouvindo os ditames do Mestre e não a sua própria mente física. Os que são abnegados, devotados e determinados trilham o caminho do Mestre todos os dias, a toda hora e a todo segundo. Se um buscador possui esse tipo de sentimento devotado por seu Mestre espiritual, ele pode fazer o mais rápido progresso em sua vida interior.

Por fim, há uma quarta postura. Frequentemente, os assim chamados aspirantes aceitam o Mestre por um dia ou dois, apenas para resolver seus problemas. Então, quando os problemas são resolvidos, vão-se embora. Ou dizem que vieram ao Mestre para libertação e realização, mas quando veem que é um longo e árduo processo, eles o deixam. Dizem que vieram buscando a mais elevada realização, mas quando veem que o caminho do Mestre não é a maneira que desejam para realizar Deus, sentem que o Mestre não é para eles e desaparecem.

Algumas pessoas perguntam a um Mestre espiritual o que fazer, e, quando ele lhes diz, fazem exatamente o contrário. Se você sabe que não é capaz de ouvir o seu Mestre, é melhor não lhe perguntar o que fazer. Senão, quando a sinceridade alcançar o seu coração e a aspiração crescer em você como uma chama ascendente, sentirá arrependimento porque não o escutou. Se não tivesse pedido o conselho, não se arrependeria, porque teria tido plena liberdade do princípio ao fim, para tomar a sua própria decisão e executá-la por conta própria. Quando o Mestre aconselha, está expressando a Vontade do Supremo. Cabe ao discípulo aceitá-la ou rejeitá-la. Se a rejeitar, o Mestre jamais se desagradará. Um verdadeiro Mestre está muito acima da aceitação ou rejeição do discípulo. Mas, se o Mestre quiser, poderá dizer ao discípulo, “Você está atrasando o seu progresso. Mas Deus está em você e Ele continuará a marchar. Devagar e sempre, Ele o levará a um dia alcançar à Meta.” Mais do que isso o Mestre não precisa dizer.

Quando o Mestre diz algo a um discípulo, ele fala para o seu bem. Mas infelizmente, em muitos momentos em que o Mestre fala, o discípulo pensa que o Mestre tem alguma intenção. Mesmo que o discípulo não tenha esse tipo de sentimento, com frequência aceita a visão do Mestre com a maior relutância interior. O que pode o pobre Mestre fazer? Se fica calado, o discípulo pensa que o Mestre lhe é indiferente, dizendo: “O Mestre não se importa comigo; só com os outros. Ele não me diz coisa alguma.” Mas, mesmo que o aspirante tenha chorado no mundo interior por meses ou anos pelos conselhos do Mestre, quando o Mestre lhe diz o que fazer, imediatamente o discípulo contesta, dizendo ao mundo todo: “O Mestre pediu-me para fazer isto e, portanto, estou fazendo. Mas por mim, eu não quero nem preciso disto; estou fazendo apenas para agradar ao Mestre.” No mundo interior, os discípulos choram por algo; e no mundo exterior reclamam do Mestre por dar-lhes aquilo.

Um Mestre espiritual tenta agradar a seus discípulos em todos os níveis. Às vezes consegue, e às vezes não. Às vezes, recebe deles a nota dez; às vezes, zero. Tenta satisfazê-los o mais devotadamente no mundo físico, no mundo vital, no mundo mental, no mundo intuitivo e no mundo da alma. A maioria dos seus discípulos pode não estar consciente desses mundos interiores, mas eles estão conscientes do mundo físico no qual vivem.

Não é sempre possível para o Mestre agradar a seus discípulos. Às vezes, um discípulo sente que o Mestre é insensível ou que não liga para ele quando o Mestre não lhe dá o que quer. Mas, se o Mestre der ao discípulo o que este deseja, a alma do discípulo se sentirá desconsolada e praguejará contra o Mestre. E o Supremo responsabilizará o Mestre. Dirá que ele está conscientemente atrasando o progresso do discípulo. Se uma criança deseja comer veneno, a mãe não lhe dá o veneno só para agradá-la.

Cada Mestre espiritual tem três tipos de discípulos: os verdadeiros, os falsos e os fanáticos. Os fanáticos na verdade não acreditam no que seu Mestre diz. Eles não têm fé implícita em seu Mestre, mas querem fazer o mundo sentir que sim. Insistem em fazer o mundo inteiro acreditar que qualquer palavra do seu Mestre é um Evangelho altíssimo. Contudo, eles não têm um pingo de fé verdadeira no seu Mestre. Os discípulos fanáticos querem apenas mostrar ao mundo quanta fé eles têm e quão próximos estão de seu Mestre.

Falsos discípulos sentem que, quando fazem algo para seu Mestre, estão fazendo-lhe um grande favor. Sentem que o Mestre estava afogando-se e eles o trouxeram em segurança para a margem. Embora essa gente possa ter sinceridade e aspiração verdadeiras à sua própria maneira, eles não são verdadeiros discípulos.

Aqueles que consideram difícil aceitar o julgamento do Mestre são também falsos discípulos. Sentem que a verdade deve ser justificada e mentalmente entendida. Se o Mestre lhes diz algo, imediatamente perguntam, “Por quê? Por quê? Por quê?” Sempre querem justificativas. A menos e até que suas mentes sejam convencidas de que o que o Mestre disse é verdade ou veio do Supremo, não fazem coisa alguma do que o Mestre pediu. Se o Mestre precisar dar tal tipo de mensagem repetidamente a fim de convencer as mentes de alguns discípulos, se ele tiver de passar toda sua vida justificando sua conduta, ele nada poderá fazer por tais discípulos. Eles estão perdendo seu precioso tempo e o Mestre igualmente. A mente pode ser convencida apenas por um breve segundo. O Mestre pode levar horas para convencer a mente, mas após pouco tempo a mesma mente começará novamente a duvidar do Mestre.

Muitas vezes esses discípulos não querem realmente uma justificativa. Querem apenas mostrar sua “tremenda sabedoria.” Ou então acham que suas perguntas nunca foram feitas antes e que as perguntas serão imortalizadas. Mas quero dizer que, neste mundo, todas as perguntas já foram formuladas e também respondidas. Quando o discípulo faz uma pergunta, apenas muda algumas poucas palavras em relação a uma pergunta feita anteriormente. E quando o Mestre responde, também muda somente umas poucas palavras. Nada é novo aqui na Terra. Todas as questões foram levantadas milhões de vezes por milhões de buscadores; e também todas as respostas já foram dadas por Mestres espirituais verdadeiros. Nada disso é novo; estamos apenas usando diferentes frases, diferentes palavras e diferentes idiomas.

Se o Mestre diz algo que mentalmente você não compreende, então medite naquilo. Você conseguirá entender o significado interior da afirmação do Mestre. Todavia, ao buscar falhas ou exigir respostas mentais adequadas, estará apenas satisfazendo a sua curiosidade mental. Ao mesmo tempo, estará literalmente poluindo os corações puros daqueles que já estabeleceram sua unicidade com o Mestre ou desejam estabelecê-la. Do mais elevado ponto de vista espiritual, se o Mestre diz que algo é preto, então seus discípulos sentem que é preto, mesmo que seja branco. Agora você diz que preto é preto e branco é branco. Mas, do mais elevado ponto de vista espiritual, se um Mestre espiritual vê algo como preto e, se conseguir entrar em sua consciência e também vê-lo preto, então, nessa hora, estará estabelecendo a sua unicidade interior com o Mestre. E esse é o começo da Deus-realização.

Digo aos meus discípulos, “Se sentir que a sua forma de ver a verdade é mais poderosa ou mais real, posso concordar com você, a fim de evitar complicações. Quando digo: 'Faz isto' e você diz: ‘Não, não, isto está errado’, imediatamente eu concordarei. Sei que não estou errado, mas não quero discutir. Apenas aguardo que a sua alma se manifeste e o faça sentir que eu estava certo.” Às vezes os discípulos pensam: “O que o Guru sabe sobre isso?” ou “O que sabe ele sobre a vida exterior?” Certo, então mantenho silêncio. Mas um dia suas almas emergirão e lhes dirão que eu havia dito a coisa certa, absolutamente correta.

Na vida espiritual, a cada momento visamos o gol. Enquanto mira o gol, algumas vezes o jogador de futebol intenta chutar com o pé direito. Mas, se percebe um poderoso oponente na direção do seu pé direito, ele muda a bola para o pé esquerdo e faz o gol. Agora, apenas porque parecia que ele ia chutar com o pé direito, alguns podem pensar, “Veja, ele não pôde marcar com o pé direito; seu pé direito não é capaz. Por isso usou o esquerdo.” Mas o que conta mesmo é marcar o gol. Se alguém usa o pé direito ou o esquerdo, não importa.

O importante é atingir a Meta e fazê-lo atingir a Meta. O verdadeiro Mestre irá sem falta levá-lo à Meta. Mas, se o Mestre encontra grande oposição com determinada técnica, ele a muda. Você pode ter a impressão de que ele está cometendo um erro ou que talvez não tenha percebido a verdade. Ele vê a verdade, mas saiba que ele lida com possibilidades, e às vezes é necessário mudar sua posição.

Verdadeiros discípulos são aqueles que, em todos os momentos, veem a verdade através dos olhos do Mestre e sentem a verdade com o coração do Mestre. Não há sentimento de separação entre um verdadeiro discípulo e um verdadeiro Mestre. Verdadeiros discípulos ou já estabeleceram sua unicidade com o Mestre em todos os planos de consciência, do mais elevado ao mais baixo, ou estão clamando por ela e tentando estabelecê-la. Não usam a mente para julgar se o Mestre está certo ou errado; usam o coração para se tornarem um com a sabedoria do Mestre. Se alguém sente a autenticidade e a realidade das palavras do Mestre, então está destinado a alcançar a consciência do Mestre. Verdadeiros discípulos não precisam saber a razão pela qual o Mestre diz isso ou faz aquilo. Sempre sentem que seu Mestre faz a coisa certa, e sabem que tudo o que faz é por eles. Mais do que isso, a todo momento o verdadeiro discípulo está pronto a lutar junto do Mestre contra a ignorância, sentindo que o Mestre luta contra a ignorância não para a própria salvação, mas para a salvação do discípulo.

Realizar Deus não é como comer uma banana ou tomar chá. É algo realmente difícil! Mas, no dia que realizar Deus, o Supremo, verá que o preço que pagou é muito pequeno. O preço da Deus-realização nunca está certo. Agora, o preço é alto demais; não há um único discípulo que dirá que o preço não é alto. Mas, quando realizar Deus, verá que o seu Guru o ajudou em tal extensão que o preço ficou baixo, muito baixo.

Cada aspirante deve consciente, devotada e incondicionalmente oferecer sua vontade à Vontade do Supremo. Quando o desejo lhe pede que faça algo, e a aspiração, algo diferente, você tem de entregar o vital que demanda e a mente que duvida à vontade do coração aspirante e da iluminadora alma. Às vezes, todo o ser quer render-se de uma vez e lançar-se no mar da Realidade divina, mas a mente que duvida diz: “Cuidado! Ao invés de uma pérola, poderá encontrar algum animal marinho perigoso.” Nessa hora, ele deve ignorar a mente. Quando há alguma hesitação por parte do discípulo, ele está verdadeiramente perdido.

Em muitos casos, sabemos o que a Vontade divina é, mas não entregamos nossa própria vontade devido à letargia ou falta de intensa aspiração. Sentimos que, se não nos entregarmos neste ano, não faz mal; teremos muitas outras oportunidades antes do fim de nossa vida. Mas, se acolhermos tal ideia, nunca nos entregaremos. Quando se trata de inveja, insegurança ou dúvida, alguns discípulos sentem que mesmo se nutrirem essas forças hoje, amanhã ainda serão capazes de conquistá-las a seu bel prazer. Mas esse amanhã nunca chegará em suas vidas. Se não começar imediatamente, nunca começará, e a transformação da sua natureza jamais se dará.

Talvez você diga, “Antes, eu tinha mais inveja ou mais insegurança e, portanto, estou progredindo, gradualmente.” Entretanto, deve comparar-se não com o obscuro passado, mas com o futuro dourado. Sinta que é um guerreiro divino e tem de lutar até o fim. Talvez diga que venceu noventa por cento da sua inveja e que restam apenas dez por cento. Mas quero dizer que, até que conquiste todo ele, não há certeza de vitória. Hoje, poderá sentir que conquistou algumas dessas forças ruins; dez dias depois verá que, como uma onda, todas elas retornaram à sua consciência, e você está novamente onde começou. Sempre que tomar consciência de qualquer movimentação imprópria dentro de si, por favor, como um herói divino comece imediatamente a lutar contra tal coisa.

Alguns aspirantes têm o sentimento complacente de que caminharam uma longa distância e agora podem descansar um pouco. Mas isso é muito perigoso. Mesmo que falte apenas mais um passo para alcançar a Meta derradeira, você não deve descansar. Mesmo à beira da realização, muitos buscadores espirituais fracassaram. Foram levados pela tentação ou dúvida, e somente após muitos e muitos anos foram capazes de retomar a vida espiritual. Portanto, esteja sempre alerta; você deve seguir adiante continuamente.

Nenhum medo, inveja, dúvida ou tristeza pode ser permitido permanecer em você. Se você retém qualidades não-divinas, está cavando o seu próprio túmulo. Não pode imaginar o que a tristeza, a dúvida e a inveja podem fazer! Podem levá-lo de volta à vida animal, mesmo que esteja num corpo humano. Elas fazem mesmo isso, e continuarão fazendo se não lançá-las conscientemente para fora da sua vida. Se realmente ama o Supremo, livre-se da dúvida, da inveja e de todas as forças não-divinas, completa e permanentemente.

Cada aspirante deve fazer a promessa interior de que obedecerá à Vontade do Supremo – ao menos por apenas esta vida. Tem de dizer a si mesmo, “Enfim, esta é apenas uma vida. Agora, tenho vinte, trinta ou quarenta anos. Talvez fique na Terra até cerca de oitenta. Sou uma pessoa tão imprestável que não posso manter uma promessa ou seguir um rumo por uns poucos e passageiros anos?” Na sua próxima encarnação, se não quiser permanecer no caminho espiritual, se quiser levar outro tipo de vida, você poderá. Mas, se quer dar uma chance à vida espiritual para agradá-lo e preenchê-lo, deve vivê-la da maneira certa. Esqueça Eternidade e Infinidade. Preocupe-se apenas com o curto tempo de uma vida dentre centenas de vidas que viveu e que viverá na Terra. Se puder verdadeiramente entregar a sua vontade à Vontade do Supremo por apenas uma vida, a satisfação absoluta despontará em sua vida. Justo agora, você luta e luta para entregar a sua vontade ao Supremo. Eu gostaria de dizer que, cada vez que faz esta entrega, você ganha força. Por fim alcançará um ponto no qual, mesmo que queira ter um desejo apartado da Vontade divina, não será capaz, porque estará unificado com a Vontade una. Nesse ponto, sua será a Vitória Suprema.

2.

Um coração puro
É imperecível.
Uma alma confiante
É soberana.
Um Mestre verdadeiro
É o Sorriso da Infinidade
E
O Choro da Eternidade.

3.

A realização pode ser alcançada através da Graça de Deus, da graça do Guru e da aspiração do buscador. A Graça de Deus é a chuva. A graça do Guru é a semente. A aspiração do buscador é o ato de cultivar. Oh, a grandiosa colheita é a realização!

4.

O seu Mestre é a ponte sagrada
Que o ajuda a cruzar o turbulento rio-vida
E alcançar a sua meta destinada.

5.

Se navegar para o Supremo
No barco do seu Mestre,
Você e seu Mestre cantarão juntos
A Canção-Unicidade da Eternidade.

6.

Um Mestre espiritual é um dínamo vivo
Que, a cada momento,
Interior e exteriormente oferece
Inspiração e aspiração
Em medida abundante.
O mundo tem apenas de aceitá-las.

7.

Você tem uma multidão de perguntas,
Mas há somente uma resposta:
A estrada está bem à sua frente,
E o guia está esperando por você.

Parte V — Estórias e peças

Esta planta é o homem, esta planta é Deus

Era uma vez um buscador. Durante muitos anos, ele procurou por um Mestre, um Guru. Infelizmente, nunca encontrou um. Esteve em muitos grupos, mas os professores que conheceu não eram do seu gosto. E ele procurava e procurava por um Mestre espiritual. Um dia, enquanto andava por uma rua, viu um Mestre espiritual com alguns discípulos. Estavam sentados na relva, num lindo gramado, e alguns discípulos molhavam a grama.

O buscador aproximou-se do Mestre e falou, “Mestre, todos esses seus discípulos escutam o senhor, não importa o que diga. Eles acreditam no senhor e estão certos quando o ouvem. Mas, eu gostaria de dizer que tenho algo para contar-lhe, mesmo que o senhor possa discordar.”

O Mestre disse, “A verdade certamente não é meu monopólio. Se você descobriu alguma verdade, naturalmente aceitarei a sua verdade de todo coração. Agora, por favor, diga-me, que verdade você descobriu?”

O buscador falou, “Minha descoberta é esta: uma pessoa do mundo não pode realizar Deus tão facilmente. Sou uma pessoa do mundo, e sei que até mesmo encontrar um Mestre é impossível. Se não encontro um professor espiritual, porque nenhum me satisfaz, então como será possível que eu realize Deus, algo infinitamente mais difícil? Encontrar um Mestre já é tão difícil para mim; alcançar a realização nesta vida é simplesmente impossível. O senhor concorda comigo?”

O Mestre respondeu, “Infelizmente, não concordo com você. Outros podem pensar que o que diz está certo, mas eu gostaria de dizer que não é tão difícil encontrar um Mestre nem alcançar a Deus-realização.”

O buscador ficou surpreso, e até os discípulos ficaram um pouco admirados com a observação do Mestre, porque a maioria sabia quão difícil fora para eles encontrar um Mestre espiritual, e que a Deus-realização era ainda uma meta distante.

O Mestre falou, “Veja, agora mesmo, alguns dos meus discípulos estão molhando a grama. Há pequenas plantas por aqui.” O Mestre apontou duas plantinhas bem miúdas. Então, o Mestre pegou uma pazinha e arrancou uma delas. Pegou a planta toda, raiz e folhas, e dirigiu-se para a outra planta. Aí, também, removeu a planta inteira e substituiu-a pela primeira. Daí, pegou a segunda planta e replantou-a no lugar da primeira.

Então, o Mestre falou, “Olhe aqui. Esta planta é o homem e aquela é Deus. Agora, eu sou o Mestre. Eu cheguei aqui e toquei esta planta. Foi uma questão de minutos, poucos minutos. Tão logo a toquei, imediatamente a planta me deu a divina resposta, e eu a peguei e a coloquei lá onde a planta chamada ‘Deus’ estivera. Então, peguei a planta-Deus e obtive toda Sua Compaixão, Amor, Alegria e Deleite, e os coloquei aqui onde o homem a planta estivera. Foi uma questão de apenas poucos minutos. Levei o homem a Deus e trouxe Deus ao homem.”

O novo buscador disse, “Mestre, quero ser seu discípulo. Por favor, inicie-me.”

“Eu o iniciarei em breve, meu filho”, disse o Mestre. E continuou, “Se sente que é quase impossível realizar Deus, significa que a sua ideia de Deus está errada, a sua ideia da espiritualidade está errada. Agora, está apegado ao mundo, mas se tiver o mesmo apego a Deus, verá que pode facilmente alcançá-Lo. Quando vou a Deus, bato em Sua porta. Imediatamente, Ele vem a mim, e eu digo, ‘Por favor, venha comigo’. Ele então vem com seu infinito Amor, Alegria, Bênçãos e Compaixão. Então, eu bato à sua porta, mas, quando bato, você não a abre; mantém a sua porta fechada, trancada. Naturalmente, Deus e eu vamos embora. Então, quando quero levá-lo ao palácio de Deus, digo, ‘Venha comigo’. Quando bato à porta de Deus de novo, Deus diz que, assim como você não abriu a sua porta quando eu O levei até você, Ele não lhe abrirá a porta Dele. Se tivesse aberto a porta quando eu trouxe Deus como o Convidado e se tivesse permitido a Deus entrar, naturalmente, Deus também teria permitido a você entrar no Seu Palácio. Portanto, se mantém a porta do seu coração aberta, Deus pode facilmente entrar.

“Mas, quando eu me aproximo, você fica perturbado. Pensa que tem medo, dúvida, problemas emocionais, problemas vitais, inveja, e assim por diante. Não quer se expor; quer se esconder. Mas, a planta que eu mudei, homem a planta, não teve medo, dúvida e nem timidez quando a toquei – absolutamente nada. Não teve medo algum da sua própria ignorância. Sentiu uma comoção porque alguém a estava levando para outro lugar, o qual era Deus. Assim, quando eu o toco, quando um Mestre espiritual o abençoa ou medita em você, nesse momento, se você oferece a sua ignorância e suas imperfeições, juntamente com suas qualidades devotadas, fica muito fácil para o Mestre levá-lo completamente para Deus. Se não, é quase impossível para o Mestre fazer qualquer coisa para transformar ou mesmo purificar as consciências dos discípulos. É uma troca de duas plantas. Isso é o que o Mestre faz quando lida com seus filhos espirituais. Uma planta é Deus, a outra planta é o homem.”

Então, o Mestre se afastou caminhando lentamente.

Os conselhos do mestre sobre a escolha de um caminho

Havia um Mestre espiritual que queria dar a cada um de seus filhos espirituais atenção, cuidados, bênçãos e orientação especiais, a despeito do fato de ter centenas e centenas de discípulos. Ele conduzia muitas reuniões por semana, às vezes, duas no mesmo dia, de modo que cada reunião pudesse ser mantida pequena e íntima, independente de quantos novos buscadores ele admitisse em sua família espiritual.

Em um ou dois dias na semana, o Mestre permitia a participação de visitantes nos encontros, e alguns posteriormente decidiam seguir o seu caminho. Um dia, quatro visitantes – três rapazes e uma moça – vieram ao Mestre, após um encontro. Um dos rapazes curvou-se perante o Mestre e disse, “Mestre, o senhor me aceitaria como seu discípulo? Eu tenho vindo aqui a cada semana durante o último mês, e finalmente decidi que este é o meu caminho.”

O Mestre perguntou ao buscador o seu nome e algumas informações sobre sua vida exterior, e, então, em silêncio, concentrou-se em sua alma. Finalmente, falou: “Certamente, eu o aceitarei como discípulo. Você tem a minha aceitação, de todo o coração. Por favor, venha aos nossos encontros regularmente e devotadamente. Eu vejo claramente que este é o seu caminho.”

O novo discípulo ficou extremamente feliz e agradecido por ter sido aceito pelo Mestre.

Então, o segundo rapaz disse, “Mestre, eu também tenho vindo durante o último mês, mas acabo de descobrir que se pode vir apenas quatro ou cinco vezes antes de decidir tornar-se um discípulo. Sinto que este pode ser o meu caminho, mas não quero tornar-me um discípulo de imediato porque não gostaria de ter qualquer conflito interior ou ser parcial quanto ao meu compromisso. Quero estar absolutamente certo.”

O Mestre respondeu, “Admiro profundamente a sua sinceridade. Infelizmente, temos essa regra aqui no ashram, mas você é muito bem vindo aos encontros das quartas-feiras à noite fora do ashram. Muitas pessoas têm vindo a esses encontros há oito, nove meses, ou mesmo um ano, mas ainda não assumiram um compromisso e, de nossa parte, não lhes pedimos que assumam qualquer compromisso. Decerto, eu sou a mesma pessoa, o mesmo Mestre espiritual, no meu ashram ou fora dele, de modo que você poderá ter a mesma oportunidade de decidir se eu sou seu Mestre.”

“Mestre, fico feliz em ouvir que poderei frequentar seus encontros nas quartas-feiras, e certamente continuarei vindo meditar com o senhor. Mas, porque o senhor tem esse regulamento rígido? Perdoe minha pergunta, mas porque a vida interior deveria ter essas limitações exteriores?”

O Mestre explicou, “Meu filho, se temos algumas regras e regulamentos como esse, podemos harmonizar mais efetivamente o grupo. Cada organização precisa de regras e regulamentos para funcionar bem. Também, é mais fácil disciplinar as vidas dos discípulos numa comunidade espiritual se há algumas regras.

“Há também uma razão espiritual, meu filho. Tenho visto claramente que, se alguém deseja selecionar um caminho, quatro visitas a um Mestre são mais que suficientes para a pessoa decidir se é o caminho certo para ela ou não. Após ver-me este número de vezes, se eu sou destinado a ser o seu Mestre, você deve sentir algo em mim. Não digo que, apenas por ser um Mestre espiritual você tem de sentir algo em mim; mas, se é meu destino ser o seu Mestre, definitivamente você sentirá algo em mim que o encorajará e o inspirará a tornar-se meu discípulo. Se diz, no entanto, que no seu caso, está demorando mais porque quer ser muito cauteloso e cuidadoso para evitar cometer um erro, então eu o convido a vir indefinidamente àquele outro encontro. Fique à vontade. Após uns seis meses, se sentir que este não é o caminho para você, poderá tentar outros caminhos.

“Sou seu irmão espiritual mais velho, digamos assim. Porque sou um pouco mais avançado que você no caminho espiritual, meu papel é levá-lo ao nosso Pai comum, mas eu mesmo não sou a Meta. Se há alguém espiritualmente um pouco mais avançado que você, então, naturalmente, ele também estará em posição de levá-lo ao Pai. Nós, Mestres espirituais, somos como mensageiros; apenas conduzimos os buscadores ao Pai. Você terá a mesma oportunidade de realizar Deus, se aceitar este caminho ou qualquer outro. Se quer aguardar, então por favor o faça, mas não se sinta triste ou perturbado. Nesse encontro e em todos os meus encontros – em todos os lugares – a porta do meu coração está toda aberta.”

O segundo buscador saudou o Mestre. “Mestre, estou verdadeiramente sensibilizado com a magnanimidade do seu coração e com a sua profunda sabedoria. Certamente continuarei vindo aos seus encontros. Muito obrigado.”

O terceiro rapaz aproximou-se do Mestre. “Mestre, sinto que minha vida está imersa em confusão. Como posso julgar minha própria sinceridade? Mestre, por favor, dê-me algum conselho.”

O Mestre falou, “Parece-me que você tem duas perguntas, não uma. Uma tem a ver com a sua confusão, outra com a sua sinceridade. Por que está confuso? O que o faz pensar que está tão confuso? Aceitação do nosso caminho é uma coisa, e confusão na sua vida, na sua mente, é um assunto completamente diferente. Pergunte-se se será feliz se não aceitar nosso caminho. Se sentir que será feliz, e se disser que não está confuso quanto a rejeitar ou aceitar nosso caminho, então a sua confusão está completamente separada de se você deve ou não aceitar a vida espiritual. Depende de você aceitar-nos ou rejeitar-nos. Este caminho é um meio de ver a verdade. A sua sinceridade lhe dirá se ele é para você.”

“Mas, Mestre,” o buscador interrompeu, “como posso julgar minha própria sinceridade?”

O Mestre respondeu, “Você pode facilmente julgar a sua sinceridade. Ela depende inteiramente da grandeza ou magnanimidade do seu coração. Você não tem de se tornar uma pessoa espiritual para ser sincero. Pense em si mesmo como duas pessoas. Pense no seu vital, mente e físico como alguém afogando no mar da ignorância, e pense no seu coração e alma como outra pessoa, atravessando o mar da ignorância a nado. Separe sua mente, vital e corpo de seu coração e alma. Sinta que, enquanto a sua mente, vital e corpo afundam, seu coração e alma têm a capacidade de salvá-los. O que deve fazer agora? Caso separe-se da pessoa que afunda, se ficar com o coração e a alma, imediatamente a grandeza do coração e a visão de futuro da alma virão salvar o homem que se afoga dentro de você. Mas, você tem de decidir se quer ou não seguir o caminho do coração e da alma para salvar o físico, o vital e a mente. Se sentir que o físico está lhe dando a mensagem certa, que o vital está lhe trazendo a mensagem certa e que a mente está lhe oferecendo a mensagem certa, estão não sentirá uma necessidade verdadeira da vida espiritual. Mas, se sentir que sua mente, por exemplo, está afundando, então deve voltar-se para o coração, porque o coração está em posição de oferecer iluminação à mente. Quando entrar para a vida espiritual, a sua mente intelectual será apenas um obstáculo inoportuno. A mente, como tal, não é ruim, mas a mente tem de ser iluminada pela luz do coração. E a luz do coração vem da própria alma.”

O terceiro buscador falou, “Mestre, seguirei seu conselho, e estou certo de que os problemas da minha confusão e da minha sinceridade logo serão resolvidos. Tentarei identificar-me com meu coração e minha alma.”

Então, o último visitante, uma moça, disse ao Mestre: “Embora tenha meditado e tido uma vida interior durante muitos anos, esta é a primeira vez que tento encontrar um Mestre. Sinto grande afinidade pelo senhor, mas não é muito cedo para eu tomar uma decisão?”

O Mestre falou, “Minha filha, entre em seu coração e alma. Se sentir que este é o caminho para você, certamente deverá vir. Se sentir que este não é o seu caminho, então vá a algum outro lugar. Mas este é o meu único pedido a você e a todos que não aceitaram um Mestre espiritual: encontre seu Mestre, o mais breve possível. Apenas porque é sincera, peço-lhe que não se adie. Você pode até dizer que tem de esperar pela Hora de Deus, mas eu digo que a hora já chegou. Este é o motivo pelo qual veio até aqui e está pensando em ir a alguns outros lugares também. Algumas pessoas são muito irrequietas. Embora vejam um objeto de que gostam na primeira loja que vão, pensam que, talvez, encontrarão algo melhor em outra loja. Vão a vinte outras lojas, esperando achar um objeto em particular, e após olhar e procurar, frequentemente acabam voltando à primeira loja.

“Porém, se são sábias, se estão realmente famintas e encontram a fruta que satisfará sua fome na primeira loja, comem lá mesmo e não se ocupam em ir de loja em loja. É certo que, se não gostarem da comida oferecida lá, têm todo o direito de ir a outro lugar. Mas, algumas pessoas exercitam o que chamam de sabedoria humana, a qual não tem validade do ponto de vista espiritual. Sua natureza é dizer ‘Vamos olhar outras coisas’. O problema é que o tempo é muito precioso. Se tenho de entrar em muitas lojas e examinar tudo, enquanto estou perdendo tempo, alguém pode comprar a fruta que eu queria a princípio. Além disso, o vendedor não mantém suas portas abertas vinte e quatro horas por dia. Se perambulo por sua loja durante muito tempo sem comprar o que preciso, ele pode decidir que é hora de fechá-la e pedir-me que vá procurar em outro lugar. Nessa hora, sou eu quem fica insatisfeito e incompleto.

“Então, após buscar em seu interior profundo, se seu coração e sua alma disserem que este não é o seu caminho, seja muito corajosa e procure outro Mestre. Mas, se sentir que este é o seu caminho, não permita que a mente se manifeste trazendo dúvida.

“Você pode pensar que a mente está sendo sinceramente cautelosa ao questionar o coração, mas, na verdade, a mente está apenas mostrando sua insegurança. A mente é perdidamente insegura, e por isso cria sempre confusão. Tenha fé somente no seu coração e na sua alma. Se a alma lhe envia a mensagem através do seu coração de que este é o seu caminho, aceite este caminho e mantenha-se nele.

“O que estou dizendo é que é melhor estar sempre alerta e não perder tempo. Temos de estudar três assuntos. O primeiro é Deus-realização, o segundo é Deus-revelação e o terceiro é Deus-manifestação. Mal começamos a estudar o primeiro, mas devemos completar todas as três disciplinas. Cada uma necessita de um grande investimento de tempo. Deus sabe quantos séculos, quantas encarnações cada uma exigirá. Então, quanto antes começarmos, melhor para nós.”

A buscadora se curvou ao Mestre e falou: “Mestre, não perderei um segundo. Buscarei fundo em meu interior e encontrarei o caminho para mim. Mestre, o senhor é nosso verdadeiro irmão espiritual, cuja única preocupação é o nosso progresso. Estamos profundamente sensibilizados com sua orientação incondicional. Faremos o que o senhor disse.” Os quatro buscadores curvaram-se agradecidos ao Mestre antes de saírem.

Eu quero apenas um aluno: o coração

Havia um Mestre espiritual que tinha centenas de seguidores e discípulos. O Mestre sempre oferecia discursos em diferentes lugares – igrejas, sinagogas, templos, escolas e universidades. Sempre que era convidado, e sempre que seus discípulos encontravam oportunidades, ele proferia palestras. Ele deu palestras para crianças e adultos. Deu palestras para estudantes universitários e para donas de casa. Algumas vezes, proferiu palestras perante estudiosos e os mais avançados buscadores. E assim foi por cerca de vinte anos.

Finalmente, chegou o dia em que o Mestre decidiu interromper suas palestras. Ele disse aos discípulos: “Basta! Fiz isso durante muitos anos. Agora, não darei mais palestras. Apenas silêncio. Manterei silêncio.”

Durante cerca de dez anos, o Mestre não deu mais palestras. Manteve silêncio em seu ashram e em todo lugar. Ele havia respondido milhares de perguntas, mas agora, nem sequer meditava em público. Passados dez anos, seus discípulos lhe rogaram que retomasse seu antigo costume de dar palestras, responder perguntas e conduzir meditações públicas. Todos pediram, e ele por fim consentiu.

Imediatamente, seus discípulos organizaram eventos em muitos lugares. Colocaram anúncios em jornais e cartazes por toda parte, anunciando que seu Mestre iria proferir palestras novamente e conduzir elevadas meditações para o público. O Mestre ia a esses lugares com alguns de seus discípulos favoritos, que eram os mais devotados e dedicados. Centenas de pessoas se juntavam para ouvir o Mestre e ter suas perguntas respondidas. Mas, para a grande surpresa de todos, o Mestre não dizia coisa alguma. Do início ao fim dos encontros, por duas horas, ele mantinha silêncio.

Alguns dos buscadores na audiência ficavam incomodados. Diziam que estava escrito no jornal e nos cartazes que o Mestre daria uma curta palestra e responderia perguntas, bem como conduziria uma meditação. “Como, então, ele não disse coisa alguma?”, perguntavam. “É um mentiroso”, diziam muitos, que ficavam aborrecidos e iam embora. Outros permaneciam durante as duas horas, na esperança de que, talvez, o Mestre falasse ao final, mas ele encerrava as meditações sem dizer uma palavra. Algumas pessoas da audiência sentiam alegria interior. E algumas ficavam por medo de que, saindo cedo, as outras poderiam pensar que eles não eram espirituais e que não conseguiam meditar. Assim, alguns saíam, alguns ficavam com grande relutância, alguns ficavam a fim de se mostrarem para os outros, e muito poucos ficavam com grande sinceridade, devoção e clamor interior.

E assim se procedeu por três ou quatro anos. Muitos criticavam impiedosamente o Mestre e deixavam os discípulos envergonhados, dizendo: “Seu Mestre é um mentiroso. Como vocês justificam colocar anúncios no jornal dizendo que seu Mestre vai dar uma palestra, responder perguntas e conduzir meditação? Ele só faz a meditação e nós não aprendemos coisa alguma com ela. Quem consegue meditar por duas ou três horas? Ele está fazendo a gente de bobo, e se passando por tolo.”

Alguns discípulos próximos ficaram muito perturbados. Sentiam-se tristes porque seu Mestre era insultado e criticado. Rogavam ao Mestre para que desse apenas uma curta palestra e respondesse umas poucas perguntas ao final da meditação. Por fim, o Mestre aquiesceu.

Na ocasião seguinte, o Mestre não exatamente se esqueceu de que havia concordado, mas mudou de ideia. Em vez de duas, ficou meditando durante quatro horas. Até seus discípulos mais próximos ficaram tristes, já que não podiam zangar-se com o Mestre, pois é um séria falta kármica zangar-se com o próprio Mestre. Todavia, ficaram com medo de que alguém na audiência se levantasse e insultasse o Mestre. Em suas mentes, prepararam-se para proteger o Mestre caso ocorresse alguma calamidade.

Quando quatro horas haviam se passado sem sinal de que o Mestre falaria ou encerraria o encontro, um dos seus discípulos mais próximos levantou-se e disse, “Mestre, por favor, não se esqueça da sua promessa.”

O Mestre respondeu imediatamente: “Minha promessa, sim. Eu lhes prometi, e então é meu dever oferecer uma palestra. Hoje, minha palestra será muito curta. Quero dizer que dei centenas de palestras, milhares de palestras. Mas, quem ouviu minhas palestras? Milhares de olhos e milhares de ouvidos. Meus alunos eram os olhos e ouvidos das plateias – milhares e milhares de olhos e ouvidos. Mas falhei em ensinar-lhes qualquer coisa. Agora, quero ter um tipo diferente de aluno. Meus novos alunos serão os corações.

“Ofereci mensagens em milhares de lugares. Essas mensagens entraram por um ouvido e saíram pelo outro, todas no mais curto espaço de tempo. E o povo me viu dar palestras e responder perguntas. Apenas por um breve segundo, seus olhos percebiam algo em mim e, então, tudo se perdia. Enquanto eu falava sobre Verdade, Luz, Paz e Beatitude sublimes, os ouvidos não podiam captá-las porque já estavam cheios de rumores, dúvida, inveja, insegurança e impureza, coisas acumuladas durante muitos anos. Os ouvidos estavam totalmente poluídos e não receberam minha mensagem. E os olhos não receberam minha Verdade, Paz, Luz e Beatitude, porque viam tudo ao modo deles. Quando os olhos humanos veem algo belo, imediatamente começam a comparar. Dizem, ‘Como ele pode ser lindo, seu discurso ser lindo, suas perguntas e respostas serem lindas? Por que eu não posso ser assim?’ E, de pronto, chega a inveja. O olho humano e o ouvido humano ambos respondem através da inveja. Se o ouvido escuta algo bom sobre alguém, imediatamente a inveja chega. Se o olho vê alguém belo, imediatamente a pessoa sente inveja.

“Os ouvidos e olhos cumpriram seus papéis. Provaram ser alunos não-divinos, e não pude ensinar-lhes. Seu progresso foi totalmente insatisfatório. Agora, quero novos alunos e tenho novos alunos. Esses alunos são os corações, onde a unicidade crescerá – unicidade com a Verdade, unicidade com a Luz, unicidade com a beleza interior, unicidade com o que Deus tem e com o que Deus é. É o aluno-coração que tem a capacidade de se identificar com a Sabedoria, Luz e Beatitude do Mestre. E, quando ele se identifica com o Mestre, descobre a sua própria realidade: Verdade, Paz, Luz e Beatitude infinitas. O coração é o verdadeiro ouvinte, o verdadeiro observador; ele é o verdadeiro aluno que se torna um com o Mestre, com a visão, com a realização e com a Luz eterna do Mestre. De agora em diante, o coração será meu único aluno.”

Expectativa humana e satisfação divina

Um dia, um discípulo muito próximo de um grande Mestre espiritual o procurou e disse: “Mestre, o senhor me tem dito para não esperar nada da minha vida, mas esperar tudo apenas de Deus. Eu tenho fé em Deus, mas a menos e até que eu O tenha visto face a face, como posso esperar algo Dele? Se vejo uma pessoa, posso esperar algo dela, mas, se não a vejo, o que poderei esperar dela? Eu vejo minhas mãos e espero algo das minhas mãos. Vejo meus membros e, só porque os vejo, sinto que posso pedir-lhes um favor. Mas, no caso de Deus, como não O vejo, de que modo posso esperar algo Dele?”

O Mestre disse, “Meu filho, é verdade que não viu Deus, mas quero dizer-lhe que há muitas coisas que consegue, as quais não vêm de uma ação das suas mãos, nem dos seus olhos, nem de qualquer parte do seu corpo. Há muitas coisas que não espera, nem de você, nem de alguém mais, mas tais coisas ocorrem, mesmo que não perceba qualquer causa exterior ou qualquer providência feita por uma pessoa conhecida sua. Elas acontecem ao Modo de Deus, o qual está muito além da sua imaginação.”

“Mestre, isso é verdade. Mas devo dizer que, muito frequentemente, quando espero algo de Deus, minhas expectativas não são satisfeitas.”

O Mestre perguntou, “Quando esperas algo de si, as suas expectativas encontram satisfação sempre?”

“Não, Mestre.”

“Se não pode satisfazer tudo que espera de si, porque espera que Deus satisfaça tudo o que espera Dele?” Alguém espera algo porque estabeleceu um objetivo para si, e, ou espera que o objetivo venha alcançá-lo, ou procura ir ao seu alcance. Porque tem algum destino em mente, ou puxa o destino para si ou se conduz para o destino. Mas os esforços próprios nem sempre são suficientes para dar-lhe sucesso. Não. Há uma força maior, que se chama Graça, a Compaixão de Deus. Quando essa Compaixão desce das Alturas, nada há que não possa esperar da sua vida. Quando a Compaixão divina desce, se tiver uma expectativa divina, é certo que será satisfeita.

“Também há a possibilidade de que, no início da jornada, um buscador possa almejar uma meta menor porque não está consciente da sua maior capacidade, ou porque não está liberto de seus desejos. Se o indivíduo não tem verdadeira, sincera aspiração, se não é um buscador genuíno, Deus lhe dará o que ele conscientemente quer e espera. Mas, se ele ora e medita com toda alma, quando Deus vir a sua sinceridade e potencialidade, Deus não irá querer que ele alcance a meta inferior. Deus guarda uma meta infinitamente mais elevada pronta para ele.

“No início, sua expectativa pode ser uma gota de luz, mas Deus está preparando você para poder receber uma vastidão infinita de Luz. No início, pode tentar obter apenas uma gota de Néctar; pode sentir que isto é suficiente. Mas Deus quer alimentá-lo com uma grande quantidade de Néctar. Assim, quando é absolutamente sincero na sua vida espiritual, se tem uma meta menor, Deus pode negar esse seu objetivo inferior, pois Ele guarda para você a Meta mais elevada. Mas, como não enxerga a Meta altíssima, sente que Deus não é bom nem Se importa com você.”

“O que é uma meta menor ou inferior?”, perguntou o discípulo.

“Deixe-me dar um exemplo”, replicou o Mestre. “Eu queria ser um cobrador de trem. Quando eu era criança e o cobrador passava pedindo os bilhetes, eu ficava tão fascinado pelos seus movimentos e com os seus gestos que eu queria ser igual a ele. Agora, veja! Eu me tornei um Mestre espiritual. Ser um Mestre espiritual é uma conquista infinitamente maior que ser um cobrador de trem. Assim, Deus não me permitiu atingir aquele objetivo menor.

“Eu também quis tornar-me um grande atleta, um corredor muito veloz, mas Deus quis algo mais. Ele quis que eu me tornasse um corredor muito rápido, não na vida exterior, mas na vida interior. O nome, a fama e as conquistas de um atleta campeão na vida exterior duram somente alguns anos. É verdade que ele inspira os jovens; mas a inspiração que oferece é nada se comparada com a inspiração que o campeão interior, o Mestre espiritual, oferece. Quando um Mestre inspira alguém, a consciência dessa pessoa é elevada, e ela dá um passo a frente em direção à Meta altíssima. O Objetivo derradeiro pode por fim ser alcançado com a ajuda da inspiração e aspiração de um Mestre.”

O discípulo disse, “Mas Mestre, mesmo quando eu espero de Deus a mais elevada Meta – Paz, Luz e Beatitude em quantidades infinitas – mesmo assim, minhas expectativas não são atendidas.”

“Meu filho, quando você espera Paz, Luz e Beatitude de Deus, significa que estabeleceu para si uma meta bastante elevada. Quando espera algo de seus amigos, parentes, vizinhos ou conhecidos, se eles não quiserem oferecer a você, então, simplesmente não o farão. E quando não obtém tal coisa, fica infeliz porque sente que, apesar de merecê-lo, não o conseguiu; ou sente que os outros não querem dar aquilo a você por causa de inveja e medo de que, se o conseguir, eles não serão capazes de mostrar sua supremacia.

“Mas, no caso de Deus, se Ele não lhe dá algo, não é porque Ele é invejoso ou porque Ele pensa que se der a você a Sua Infinidade não será capaz de manter Sua Supremacia. Não. Você pode sentir que o que tem recebido é apenas uma gota, enquanto o que espera é um oceano infinito; mas, quando Deus lhe dá somente uma gota, é porque Ele sente que mesmo essa pequena gota pode ser muito. Mas, gradualmente, Deus aumenta a sua capacidade, e chegará o dia que você será capaz de receber uma grande gota. E, por fim, será capaz de receber o oceano todo.

“Se espera algo de Deus, mas não o obtém, tenha certeza de que Deus tem razões muito boas e legítimas para não dar aquilo a você. É porque Ele lhe dará algo muito melhor no futuro. Também, Ele dirá a razão pela qual o está negando tal coisa. Se Ele não satisfaz sua expectativa, Ele oferece Luz a você. Através da Luz, Ele torna claro porque não está dando a você o que espera. E, se Ele dá de imediato o que quer, então Ele também diz o motivo de estar conseguindo aquilo agora. Assim, minha criança, se verdadeiramente quer esperar algo, espere não de si, nem de qualquer pessoa, mas somente de Deus.

“O atendimento de expectativas é simultaneamente uma necessidade humana e uma satisfação divina. Quando dizemos que estamos satisfeitos, referimo-nos ao atendimento da nossa expectativa. Mas essa satisfação de expectativa ocorre num modo divino apenas quando entregamos nossa vontade à Vontade de Deus.

“Senão, estaremos orando a Deus, meditando em Deus, adorando a Deus e tentando agradar a Deus com uma forma inadequada de expectativa. Porque rezamos durante oito horas, esperamos que Deus nos dê um sorriso. Mas como saber se, obtendo um sorriso de Deus, nossa vida será imortalizada, ou se, conseguindo outras coisas que queríamos, nossa vida será verdadeiramente satisfeita?

“Se esperarmos de Deus de um modo divino, a Realidade crescerá em nós; e com essa Realidade seremos capazes de seguirmos em direção à nossa Imortalidade, nossa Meta transcendental altíssima.”

Quem é mais importante — O Guru ou Deus?

Um dia, um Mestre espiritual assistiu a uma triste discussão, uma disputa entre dois de seus discípulos. Os dois estavam quase brigando. O Mestre aproximou-se e falou, “Então, qual é o problema? Por que estão discutindo e brigando?”

Ambos exclamaram: “Mestre, Mestre, ajude-nos! Precisamos de sua orientação. Precisamos da sua luz.”

O Mestre disse: “Se falarem ao mesmo tempo, não poderei fazer qualquer julgamento. Então, diga-me, um dos dois, o que está aborrecendo vocês.”

Um deles falou: “Mestre, o pomo da discórdia é o senhor e ninguém mais.”

“O quê?”, exclamou o Mestre.

O discípulo continuou, “Ele diz que o Mestre, o Guru, é mais importante que Deus. Eu digo: impossível, Deus é mais importante. Ele diz que o Guru é mais importante porque o Guru mostra o caminho, pavimenta o caminho, e o Guru leva o discípulo até Deus. Ele também diz que, embora Deus se importe com todos, mesmo com o adormecido e o não aspirante, se alguém deseja as bênçãos e cuidados imediatos de Deus, é através do Guru que pode obtê-los. Por isso, o Guru é mais importante.

“Mas eu digo que não, que é Deus quem dá esse tipo de amor e compaixão ao Guru; é Deus quem faz do Guru um instrumento para ajudar a humanidade. Então, para mim, Deus é mais importante.

“Ele diz que há uma Meta, mas, se alguém não o levar até a Meta – esse alguém sendo o Guru – Deus será sempre um destino longínquo. Ele diz, ‘O Objetivo pode estar lá, mas quem me levará até lá? Não posso ir sozinho; não sei o caminho. Então, meu Guru é mais importante, porque a Meta não virá até mim.’

“Eu digo: não, a Meta pode não vir até mim, mas a Meta é Deus. Agora, se o Guru o leva até o Objetivo, Deus, e Deus não lhe dá atenção, qual a importância do mensageiro? O Guru pode levar alguém até perto da Meta; mas, se a Ela não se importa com essa pessoa, naturalmente a viagem é inútil. Um ser humano pode levar alguém a um Mestre, mas se o Mestre não se agrada da pessoa trazida, o caso é perdido. Mais importante não é quem leva o discípulo, mas quem se agrada do discípulo. Se Deus Se agrada de alguém, isto é mais do que suficiente.

“Ele diz que, se o Guru aceita alguém como seu mais querido discípulo, então ele toma em seus ombros a lei do karma. Quando o pai sabe que seu filho fez algo errado e o pai quer poupar o filho, ele mesmo assume a punição. Esse é o Guru. Mas Deus é o Pai Universal. Ele trabalha com a Sua Lei Cósmica. Quando fazemos algo errado, Ele nos dá as consequências, a punição. Ele sente que o Guru é mais importante, porque o Guru toma para si a punição que o discípulo merece, ao passo que Deus sempre administra a Sua Lei Cósmica.

“Mas eu digo que não, que Deus não nos pune; Ele apenas nos concede uma experiência. Quem pune quem? Deus tem Sua própria experiência em e através de nós. Não recebemos punição alguma, pois é Deus quem sofre ou Se alegra através de nós, em nós.

“Além do mais, Deus existia antes do Guru vir ao campo da manifestação, e Deus continuará sendo Deus por muito tempo após o Guru deixar o campo da manifestação. O Guru veio de Deus e retornará a Deus, sua Fonte. Mas Deus é infinito e eterno, e jamais deixará de existir. Deus é o Todo; o Guru é a personificação temporária.

“Guru, eu tenho total devoção ao senhor. Embora ele diga que você é mais importante que Deus e eu diga que Deus é mais importante, tenho profunda fé no senhor. Você poderia, por favor, iluminar-nos neste assunto?”

O Guru disse, “Vejam, pensando que o Guru é o corpo, então o Guru não tem importância alguma. Pensando que o Guru é a alma, então o Guru e Deus são igualmente importantes; eles são um e o mesmo. Mas, sentindo que o Guru é o Eu Infinito, o Eu Transcendental, então se faz necessário perceber que não é o corpo do Guru nem a alma do Guru, mas sim o Supremo nele o Eu Transcendental. O Supremo é o Guru, o Guru de todos. Tentando separar o físico, a alma e o Eu Transcendental em três partes diferentes, jamais Deus será realizado, jamais será possível realizar a Verdade altíssima. Para se realizar a Verdade altíssima, deve-se servir ao aspecto físico do Mestre, amar a alma do Mestre e adorar o Eu Transcendental do Mestre. O mais importante é ver no físico a luz sem limites do Mestre; na alma, a consciência de inseparável unicidade; e no Eu, a eterna libertação. Só então, o Mestre e Deus podem tornar-se um.

“Deus e o Guru são igualmente importantes no Jogo Eterno, o Teatro Divino.”

Deve-se seguir a própria natureza

(Um homem santo nada no rio, e um observador está sentado na margem, assistindo. O homem santo vê um escorpião bem diante de si. Com pena da pobre criatura, ele o pega e, bem devagar, com toda gentileza, o põe em terra. Enquanto faz isto, o escorpião o ferroa severamente. O homem começa a chorar de dor.)

HOMEM SANTO: Eu queria salvá-la e salvei-a. É essa a minha recompensa? De qualquer modo, cumpri meu dever.

(Alguns minutos depois, o escorpião cai de novo no rio. O observador continua assistindo.)

HOMEM SANTO: Ah, pobre criatura, você sofre novamente. Sinto pena de você.

(Ele pega o escorpião outra vez e o coloca em terra. Uma vez mais, o escorpião o ferroa, desta vez com mais força ainda, e o homem santo grita com tremenda dor.)

OBSERVADOR: Você é um tolo! Por que fez isso? Da primeira vez, errou, e da segunda, repetiu o mesmo erro.

HOMEM SANTO: Meu amigo, o que posso fazer? Minha natureza é amar, minha natureza é salvar. A natureza do escorpião é odiar, a natureza do escorpião é ferroar. Eu tenho de seguir minha própria natureza e o escorpião tem de seguir sua própria natureza. Se ele cair na água outra vez, eu o tirarei, não importando quantas vezes ele venha a cair. Serei picado, chorarei, lamentarei; mas não negarei minha natureza, que é amar, salvar e proteger os outros.

(O observador, imediatamente, pula no rio e toca os pés do homem santo.)

OBSERVADOR: O senhor é meu professor, meu Guru. Eu tenho procurado, ansiado por um Guru. Hoje, encontro no senhor meu verdadeiro Guru. E como sou seu discípulo, de agora em diante, se o escorpião cair no rio, serei eu quem vai colocá-lo de volta em terra.

(O discípulo canta.)

Amar bhabana
Amar kamana
Amar eshana
Amar sadhana
Tomar charane
Peyechhe ajike thai
Moher bandhan hiyar jatan
Timir jiban shaman shasan
Halo abasan nai nai ar nai

[Meus pensamentos, meus desejos, minha aspiração, as disciplinas da minha vida
Hoje encontraram morada a Seus Pés.
As amarras do apego tentador e as dores do coração,
A vida de escuridão e a tortura da morte,
Não mais vejo, não mais sinto.]

(Ele ajuda o homem santo a sair do rio. O Guru, agora sentado na margem, observa a cena. Em poucos minutos, o escorpião cai no rio. O discípulo o pega e o põe em terra firme, mas o escorpião não o fere.)

DISCÍPULO: Como pode, Mestre? Eu não fui ferido. Pensei que eu também seria ferroado pelo escorpião. O senhor foi ferido impiedosamente duas vezes. Eu não entendo.

MESTRE: Minha criança, você não compreende? Devo lhe dizer? Você acreditará em mim?

DISCÍPULO: Por favor, por favor, diga-me. Eu acreditarei no senhor, Mestre.

MESTRE: O escorpião também tem uma alma, e ela lhe disse que, se ele o picasse, ao invés de colocá-lo em terra, você o mataria imediatamente. O escorpião sabia que você não aceitaria aquilo, que não toleraria a ingratidão dele. De você, o escorpião não obteve qualquer garantia de sua segurança. O escorpião não o picou porque sentiu isso. No meu caso, a alma do escorpião sabia que eu jamais o mataria, independente de quantas vezes ele me picasse; eu apenas o pegaria e o colocaria em terra, para a segurança dele. No dia-a-dia, as pessoas também brigam, discutem e ameaçam outras apenas quando percebem que seus oponentes são fracos ou não querem brigar. Mas, caso vejam que alguém é mais forte do que elas, então ficam caladas.

DISCÍPULO: Mestre, o senhor tem discípulos?

MESTRE: Tenho muitos, muitos discípulos.

DISCÍPULO: O que o senhor faz com eles?

MESTRE: Eu dou e recebo, recebo e dou. Recebo seu veneno todos os dias e dou-lhes néctar. Recebo sua aspiração e dou-lhes realização. Recebo deles o que eles têm, ignorância, e dou-lhes o que eu tenho, sabedoria. Eles me dão a garantia da minha manifestação e eu lhes dou a garantia da sua realização. Nós necessitamos um do outro. Você precisa de mim para poder esvaziar-se – esvaziar sua impureza, imperfeição, obscuridade e ignorância – em mim. E eu preciso de você para poder enchê-lo com o meu todo, com tudo que há em meu interior. Assim é como completamos um ao outro. A sua natureza é dar-me o que você tem: impureza, obscuridade, imperfeição, limitação, apego e morte. Minha natureza é dar a você o que eu tenho: pureza, amor, alegria, luz, beatitude e perfeição. Quando sua natureza entra na minha natureza e minha natureza entra na sua natureza, ambos somos totalmente manifestos e totalmente completos. Assim é como o buscador e o professor satisfazem ao Piloto Eterno, o Supremo.

DOIS DISCÍPULOS

(Dois discípulos numa sala no ashram de seu Mestre.)

PRIMEIRO DISCÍPULO: Eu disse, eu disse, eu disse!

SEGUNDO DISCÍPULO: O quê foi?

PRIMEIRO DISCÍPULO: Eu disse a você que nosso Mestre não tinha nada. Nada! Ele não tem poder espiritual. Ele não tem poder oculto. Ele só sabe falar. Ele fala sobre Realidade Transcendental, e Consciência Universal, e tudo o que ele pode fazer com seu poder oculto. Mas é tudo mentira. Ele sabe como falar e nós sabemos como ouvi-lo. Mas ele não tem nada, nada. Veja só, ele vem sofrendo desse reumatismo há três meses. Se tivesse ao menos um pingo de poder oculto, já poderia ter se curado.

SEGUNDO DISCÍPULO: Meu coração me diz que ele tem capacidade de se curar, mas Deus está pedindo-lhe que tenha essa experiência.

PRIMEIRO DISCÍPULO: Ele diz que está tirando nosso karma, mas não fizemos coisa alguma. Eu nada fiz de errado. Você e os outros discípulos também não. O que acontece é que ele nos culpa quando ele faz algo errado. Quem sabe o que ele fez de errado no mundo interior? É a razão para ser punido. E, exteriormente, ele nos culpa.

SEGUNDO DISCÍPULO: Ele nunca nos culpa. E eu acredito nele quando diz que está limpando nosso karma.

PRIMEIRO DISCÍPULO: Você acredita? Então, acredite. Fique com ele e sofra. Morra com ele.

SEGUNDO DISCÍPULO: Eu morrerei com ele. Não apenas morrerei com ele, mas morrerei por ele.

PRIMEIRO DISCÍPULO: Deus criou dois tipos de pessoas na Terra: um tipo para enganar, outro tipo para ser enganado; um tipo para tirar vantagens, outro tipo para ser explorado.

(Entra o Mestre. O primeiro discípulo começa a esgueirar-se para longe. O segundo toca os pés do Mestre.)

MESTRE (para o primeiro discípulo): Então, você entende que eu não tenho capacidade, que apenas me vanglorio? Não sou o Mestre adequado para você. Você fará melhor indo para outro Mestre, ou esperando pelo Mestre adequado chegar. Deixe-me. Vá para casa e viva em paz. (Para o segundo discípulo) Você acredita em mim. É meu dever ajudá-lo, guiá-lo. Agora, diga-me, você realmente sente que tomo a sua ignorância, a sua imperfeição em meu corpo? Ou diz isso apenas porque estudou minha filosofia e livros escritos por outros? Você leu sobre Ramakrishna, que removeu a impureza, imperfeição e ignorância dos seus discípulos e sofreu tanto. Muitos, muitos Mestres espirituais disseram terem feito o mesmo. Você pensa que eu digo isso só porque tantos outros já o disseram? Pensas que estou apenas falando, ou acha que eu realmente removo coisas de vocês?

SEGUNDO DISCÍPULO: Mestre, eu sei o que o senhor tira de mim. Todos os dias, o senhor tira de mim insinceridade, obscuridade, impureza, inveja, dúvida, insegurança e muitas outras imperfeições. Para onde elas vão? Eu as dou ao senhor; elas vão para o senhor. Se ninguém mais na Terra acredita, não me importo. Mesmo que o senhor me diga que não as toma, que é o seu próprio karma, eu não acreditarei. Eu sei que Deus está dando-lhe essa experiência para o meu bem. Se eu tivesse de passar por essa experiência, talvez até morresse.

MESTRE: Minha criança, há duas razões para eu sofrer. Uma é que realmente tomo para mim os fardos, as imperfeições, as qualidades não-divinas dos meus discípulos próximos. Isso é o que o Supremo quer que eu faça. Há dois modos de extrair esse karma. Um é assumi-lo e sofrer; o outro modo é lançar as imperfeições do discípulo na Consciência Cósmica. Mas a maneira mais fácil, infinitamente mais fácil, é assumi-lo. É um caminho direto. Você sofre, e eu o toco e retiro seu sofrimento. O outro caminho é como levá-lo a um local diferente, para a Consciência Universal. A Consciência Cósmica pode ser vista como um monte de rejeito. Eu pego as suas impurezas e imperfeições e faço um pacote. Então, tenho de levar o pacote até lá e jogá-lo fora. Mas, daquela outra maneira, eu apenas o toco e, como um ímã, retiro seus sofrimentos, dores e qualidades não-divinas. É mais fácil, e é por isso que o faço. Deus quer que eu faça isso.

Eu digo a Deus: “Deus, minhas crianças me amam tanto e eu não as amo, eu não as agrado.” E então, Deus me diz: “Veja o quanto você sofre por elas. Veja o seu próprio amor, Meu filho – quão sinceramente, quão devotadamente você as ama. Você sente que na perfeição dos seus filhos está a sua perfeição, o que é absolutamente correto. Eles o amam apenas porque sentem que, se o possuírem, possuirão tudo. Elas o amam para terem-no; você as ama para poder trazê-las a Mim. Você as ama porque sente que, se puder trazê-las a Mim, terá cumprido o seu papel. Amando você por benefício próprio, elas sentem que fazem a parte delas. E, quando você as ama, quando as traz até Mim, para seu Altíssimo, você também sente que cumpriu a sua parte.”

Mas Deus também me deu outra razão para sofrer. Muitas pessoas vêm a mim com apenas desejos, desejos, desejos. Vêm a mim apenas para satisfazerem seus desejos. E quando veem que eu fico paralisado de dor, que também estou sujeito a sofrimentos e doenças, que sou tão fraco quanto eles, dizem: “Ele está inválido, desamparado. Como pode ajudar-nos? Como ele pode ser melhor do que nós?” Sentem que o melhor é procurarem outro que possa ajudá-los, e muitos partem. Mas a verdade é que Deus quer que essas pessoas me deixem. Quando se vão, meu barco fica mais leve e pode ir mais rápido em direção à Meta. Deus quer que aqueles que não aspiram deixem seu Mestre, assim tornando o barco do Mestre mais leve.

Essas são as razões por que sofro. Quando um discípulo sincero vê que estou sofrendo por ele, diz, “Se eu realmente amo meu Mestre, devo dar-lhe apenas alegria.” Então, o discípulo faz uma promessa, uma promessa interior: “Quero que ele sinta, constantemente, orgulho de mim. Nada me dará maior alegria do que ver meu Mestre sempre orgulhoso de mim.” E, assim, o discípulo não comete mais erros e o Mestre fica feliz e orgulhoso.

(O primeiro discípulo toca os pés do Mestre.)

PRIMEIRO DISCÍPULO: Mestre, por tanto tempo eu fui uma criatura inumana, desprovida de fé. De agora em diante, serei seu fiel e devotado discípulo.

SEGUNDO DISCÍPULO: Mestre, eu tenho sido um discípulo devotado e fiel por um longo tempo. Hoje, o senhor me contou o segredo do seu sofrimento. De hoje em diante, eu me considero uma importante parte consciente do senhor. Eu me considero um braço seu. Mestre, sua compaixão é a única salvação da minha vida.

PRIMEIRO DISCÍPULO: Mestre, seu perdão é a única salvação da minha vida.

MESTRE (para o primeiro discípulo): Reconhecendo a sua estupidez, a sua ignorância, você trouxe a sua divindade para a tona. (Para o segundo discípulo) Reconhecendo-me, a minha Verdade espiritual, você manifestou a Divindade de Deus na Terra. Manifestou a Vontade de Deus na Terra.

Parte VI — Nosso Caminho

Nosso Caminho

Na palestra a seguir, Sri Chinmoy descreve seu caminho espiritual.

Nosso caminho é basicamente o caminho do coração e não o caminho da mente. Isso não significa que criticamos o caminho da mente. Longe disto. Apenas sentimos que o caminho do coração nos leva mais rápido à nossa meta. Suponhamos que eu queira ir a um lugar distante quinhentas milhas. Posso chegar lá andando ou voando. Sem dúvida, chegarei consideravelmente mais rápido num avião a jato. Da mesma forma, se usarmos o coração aspirante, e não a mente que duvida, atingiremos nosso objetivo mais rapidamente. O coração é todo amor. A mente é, muitas vezes, toda confusão. Quando falamos do coração, queremos dizer o coração espiritual, o qual é inundado de amor divino.

O coração é significativo dessa forma porque nele está a presença viva da alma. É verdade, a consciência da alma permeia todo o corpo, mas a verdadeira localização da alma é no coração. A alma tem tudo: Paz, Luz e Beatitude em medida infinita. Essas qualidades divinas chegam ao nosso coração diretamente da alma. E, do coração, podemos trazê-las para a mente, para o vital e para o corpo físico.

Deus é extremamente simples. Somos nós que pensamos Nele como alguém complicado. Deus utiliza a linguagem mais simples, mas nós não O entendemos. Somos todos surdos, e temos sido assim por milênios. Pobre Deus, Ele vem falando constantemente, incansavelmente, mas nunca temos tempo para ouvi-Lo.

Nosso caminho é o caminho da simplicidade. Uma criança é simples: ela ama sua mãe. Não precisa amar mais ninguém; ela é todo o seu mundo. A criança se devota à sua mãe, e se esta lhe pede para fazer algo, ela ouve. Uma criança é tão simples que tenta fazer tudo para agradar a mãe; e, agradando à sua mãe, faz a coisa certa e atinge sua mais elevada meta.

Na vida comum, se alguém ama outro indivíduo, então passa a maior parte do tempo com essa pessoa e devotando seu precioso tempo. Se é um amor humano sincero – não amor divino, mas amor humano – às vezes, a pessoa se entrega aos caprichos do outro, mesmo que sejam absurdos. Rende-se porque os dois formaram um laço interior e exterior com a força de seu amor. Assim, se um ama ao outro, estará pronto para sacrificar até a sua preciosa sabedoria.

Na vida espiritual, é completamente diferente. O amor divino nunca nos prende. Ao contrário, ele nos expande e nos liberta. Quando vemos e sentimos que estamos sendo libertados, sentimos interiormente uma obrigação divina de fazermos algo por nosso Piloto Interior. Como podemos ficar alheios ao Uno, o qual nos tem dado tudo, que nos trouxe a mensagem de Amor e Compaixão divinos? Seria possível que não Lhe ofereçamos algo em troca? Se nos restringimos à vida exterior, tudo o que fazemos é tentar possuir todas as coisas, até o que pertence aos outros. Mas, se vivemos na alma, procuramos constantemente dar tudo que temos e tudo que somos ao Piloto Interior. Amor divino é auto-doação.

Mas apenas dar algo, apenas oferecer algo, não é suficiente. Tem de ser dado com entusiasmo e intensa urgência interior. Oferecemos ao Piloto Interior em nós e nos outros, e quando o fazemos devemos sentir que estamos oferecendo ao divino no outro, ao Supremo nele, que agora necessita desse auxílio de nossa parte. Quando oferecemos amor divino a alguém, devemos fazê-lo dedicada e alegremente. E, enquanto damos, não devemos sentir que fazemos ao outro um grande favor, que estando em posição de ajudá-lo, que somos superiores. Não. Devemos sentir que Deus nos concedeu uma grande oportunidade de servi-Lo, e devemos ser gratos à pessoa que nos colocou em posição de ajudar ou servir ao Supremo nela. Precisamos nos sentir agradecidos por termos nos tornado Seus instrumentos escolhidos quando Ele poderia tão bem ter escolhido outros. Temos de mostrar constante gratidão pelo simples fato de Ele nos ter empregado. Essa espécie de devoção é nosso serviço dedicado.

Então, vem a entrega. Essa entrega não é aquela de um escravo a seu senhor. Um senhor comum encontra falhas no escravo, enquanto acha que ele mesmo é sempre perfeito. Mas, no caso do Supremo, não é assim. Quando Ele lida conosco, sente que nossas imperfeições são Suas imperfeições. Se encontra defeitos na nossa natureza, Ele os considera todos Seus defeitos. A menos e até que alcancemos a perfeição, Deus não Se sentirá perfeito. Deus é onisciente, onipresente e onipotente; é verdade. Mas quando se trata da perfeição manifestada na Terra, Deus sente que Ele ainda é imperfeito em mim, em vocês, em todos. A mensagem da perfeita perfeição ainda não despontou na Terra. Nós nos entregamos a Deus de todo o coração, sabendo perfeitamente bem que o que temos é quase nada e o que somos é quase nada. Se damos o nosso nada a Ele, tornamo-nos um instrumento escolhido do Supremo e permitimos que Sua Perfeição cresça em nós.

Amor, plenitude e Deus sempre andam juntos. Deus nunca ficará satisfeito com algo incompleto, não realizado, não satisfeito e não manifestado. Ele quer de nós realização, revelação, manifestação e perfeição. Se essas coisas não acontecem nesta vida, então precisaremos de muitas outras encarnações. Mas Deus jamais permitirá que alguém permaneça não realizado e incompleto. Hoje é o seu momento para realizar Deus. Amanhã será o momento para seu amigo realizar Deus. Depois de amanhã será tempo de alguém mais realizar Deus. Há para cada pessoa uma hora, a qual chamamos “Hora escolhida de Deus.” À Hora escolhida de Deus, a pessoa estará fadada a realizar Deus.

Sentimos que nosso caminho é mais fácil e mais efetivo considerando-se que não é necessário ler milhões de livros para saber o que a Verdade é. Não temos de exercitar nossa mente dia e noite para saber com o que a Verdade se parece. Não, a Verdade está dentro de nós, e clama por vir à tona. Mas, infelizmente, mantemos a porta fechada e não permitimos que a Verdade saia.

E agora, como podemos tirar a Verdade da cela onde está aprisionada? Novamente devo dizer que é através do amor. Amor por quem? Amor por Deus. E quem é Deus? Deus é a mais elevada parte iluminada em nós. Deus não é nada nem ninguém mais. Eu tenho uma cabeça e dois pés. Digamos que minha cabeça representa o mais elevado em mim e meus pés, o mais baixo em mim, a minha ignorância. Eu sei que o mais elevado e o mais baixo são ambos meus. O mais baixo tem de entrar no mais elevado a fim de ser transformado, liberto e satisfeito. O mais elevado tem de entrar no mais baixo a fim de ser revelado e manifestado.

No nosso caminho, a capacidade de se identificar é absolutamente necessária; o mais elevado tem de sentir sua completa unicidade com o mais baixo, e o mais baixo tem de sentir sua total unicidade com o mais elevado. É desnecessário dizer que o mais elevado sempre sente sua unicidade com o mais baixo. É o mais baixo que considera extremamente difícil ser um com o mais elevado, por causa de seu medo, dúvida, inveja, etc.

Que espécie de compromisso é necessário para seguirmos nosso caminho? Não é o tipo de comprometimento que você tem de firmar em outras organizações espirituais ou culturais. Para estas organizações, você tem de pagar uma taxa regularmente. Mas quando eu peço que vocês assumam um compromisso, é diferente. Eu digo que, se você vê algo em mim, se vê ou sente luz dentro de mim, então você pode seguir o meu caminho se desejar. Não haverá demanda monetária. Você não terá de me dar cinco ou dez dólares, e nem qualquer coisa assim. Não, é uma questão da sua própria aspiração – de quão sincero e regular você pode ser em sua vida espiritual. Se não for sincero, então não será capaz de correr rapidamente. Mas se é sincero e dedicado, então correrá muito rápido. O comprometimento que peço em nosso caminho é regularidade na sua meditação e aspiração, um sincero clamor interior. Nada mais eu peço a qualquer discípulo.

Nosso caminho, o caminho do coração, é também o caminho da aceitação. Nós temos de aceitar o mundo. Se formos para uma caverna nos Himalaias ou sentarmos no topo de uma montanha e clamarmos por nossas conquistas e satisfação pessoais, não estaremos fazendo coisa alguma pelo mundo. É algo assim: estarei comendo a comida para meu contento e deixando meus irmãos sem alimento e famintos, e isso não é bom. Se eu sou um verdadeiro ser humano, devo cuidar que meus irmãos comam junto comigo. Somente teremos verdadeira satisfação se comermos juntos.

Da mesma forma, na vida espiritual, os verdadeiros Mestres espirituais sentem ser seu dever comer diante da humanidade e compartilhar do alimento espiritual com a humanidade. Agora, se a humanidade como um todo não deseja comer como deveria, se muitos ainda estão dormindo e não sentem ainda a fome espiritual, então o que o Mestre espiritual pode fazer? Mas, se há uns poucos buscadores sinceramente famintos, o Mestre espiritual lhes diz: “A refeição está pronta. Vamos comer juntos.”

No nosso caminho de aceitação temos de saber que a Terra está longe da perfeição. Mas, a menos que aceitemos a consciência-Terra, de que forma a aperfeiçoaremos? Se alguém sente alguma dor, tenho de massageá-lo. Só assim sua dor passará. Do mesmo modo, se a Terra é imperfeita num determinado ponto, eu devo tocá-la com meu cuidado e aspiração. Só assim poderei transformá-la. Enquanto a consciência-Terra não estiver completamente realizada, eu tentarei permanecer na Terra para servir à humanidade com minha consciência interior.

Traduções desta página: Japanese , Italian , Czech
Este livro pode ser citado usando a cite-key md